sábado, 15 de fevereiro de 2025

Zilah

 


Zilah acordou velha naquele dia e assim com surpresa, olhou o entorno para confirmar algum traço desta velhura que se achegava sem nenhuma cerimônia para perto de si, para dizer o mínimo. Nem abriu muito os olhos remelentos da noite porque poderia ser que o que sentia fosse apenas uma sensação e não uma realidade. Ficou ali, deitada, tentando entender o que se passava, porem, tudo parecia apontar para uma transição relâmpago, entre sua vida de moça para sua vida de velha.

A começar pelo levantar-se da cama que pareceu a ela uma eternidade ate conseguir ficar de pé. Na lembrança bem recente, aliás, a rotina era pular da cama e correr para o chuveiro e mais mil coisinhas pequenas a se fazer antes de se jogar para a rua, se maquiando e arrumando o cabelo no carro mesmo, na parada de sinaleiras, e como o transito naquele horário era trancado, podia, além de se arrumar, atualizar-se de tudo o que rolava no mundo. Na palma da mão o mundo se ajoelhava. Parecia um lapso de uma memoria recente estes fatos.

Ao sentar-se na cama e posicionar seus pés no chão notou que eles caíram perfeitamente sobre um par de pantufas peludas e quentinhas, o que a surpreendeu, pois não era acostumada a ter ao chão chinelo organizado para ser calçado. Ficou com mais uma pulga atrás da orelha e de certo modo sombria. O que mais esta manhã vagarosa estaria lhe aprontando?

Zilah não se deu conta que o que  estava acontecendo era pouco frente ao que estava por vir.

Enfim resolveu que já era hora de abrir bem os olhos e levantar-se, porém, ao fazer isso percebeu em seu corpo uma relutância em conjugar ossos, músculos e articulações para que enfim pudesse dar os primeiros passos naquela manhã gelada, mas que pensando bem, assim o era fazia algum tempo, mas havia confusão de tempo ali.

Sua mente estava acelerada e o recado que enviava ao seu esqueleto recentemente desperto era de ir! Mas, algo a deteve e depois de um pensar mais detido deu-se conta que o corpo físico – arrisco em proferir - não andava conversando com a mente e assim, com um modo esdruxulo de falar, um mandava e outro não obedecia. Que sinuca de bico a Zilah se encontrava, ao erguer-se sentiu a recusa da ossada de se juntar aos músculos, a mente a intenção de andar, a cabeça de raciocinar e as pernas a obedecer.

Finalmente estava de pé e avançou alguns passos bem coordenados dando a sensação que tudo voltara a ser como antes, porque apesar de certas dores a envolverem como um todo, a mente estava tinindo, o que lhe deu a alforria dos pensamentos brumosos do inicio da manhã.

Andou um pouco mais e se surpreendeu com um detalhe. Ao olhar em volta percebeu a casa vazia e por mais que articulasse os nomes dos familiares, apenas o eco do salão principal lhe respondia o que, de pronto, não lhe causou maior preocupação. Afinal, dias corridos fazem com que todo mundo se evada de casa logo ao amanhecer sem oportunidade de articular um até logo para quem quer que seja. Zilah estranhou seu atraso nesta manhã e tentou lembrar porque não havia saído à rua como todos da casa haviam feito. Não lembrou.

Continuou a arrastar os chinelos e com mais medo do que coragem foi verificar como as coisas estavam no restante da residência. Alarmou-se porque descobriu que aquele não era o lar em que havia passado tanto tempo de vida. O lugar era pequeno, mas bem distribuído e todos os objetos e móveis que teve apreço em toda sua vida ali estavam muito bem arrumados, com os retratos da família e livros postos em lugar muito nobre e de fácil acesso.

Desta vez achou por bem não espantar-se. Alguma coisa lhe dizia que a impressão de tão cedo pela manhã ao despertar não estava de todo errada. Sim, acordou velha. Riu-se da sua demora em acreditar na intuição matutina ou, quem sabe, do sonho da noite que lhe trouxe os arroubos da juventude à baila. Não importa.

Assim, pé-ante-pé dirigiu-se à salinha exígua onde fazia as refeições. Com capricho escolheu a toalha um pouco amarfanhada e amarelada do tempo, ergueu sua taça de vinho para brindar ao fim que andava por perto, mas que afinal não havia chegado ainda e aí, nesta hora perfeita, percebeu uma companhia oculta. Tim-tim.

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2025

Entre elos

 


Nesta andança entre as muretas da vida ando cismada com o tanto de corrente  - físicas e imaginárias - que circulam por ai, algumas me cercando com fúria, outras frágeis a um simples olhar e tantas outras encadeadas de palavras, atitudes, assuntos, histórias e o mais que se imaginar, rendendo boa reflexão, muitas vezes em momentos que o desejo é apenas de ficar em silencio, solitariamente na companhia do mar.

Impossível não entender que o cerco das palavras vem em primeiro lugar, muitas vezes não dando a perceber se vem a galope, montado em alguma injúria, voando na asa da controvérsia ou a par e passo com a falta de respeito generalizado.

À primeira vista parece apenas um grande emaranhado, mas, observando com mais vagar a percepção é de cercas vivas e atuantes junto ao mais delicado sentimento e que pode ocasionar um desvio no tempo de agora, um pensamento comovido, uma tristeza, uma decepção.

Romper o grilhão que se apresenta fora de contexto vai acontecer, mais cedo ou mais tarde, aliviando o panorama no entorno, deixando que novamente e mais uma vez prevaleça o encantamento de perceber a renovação do bem em volta de si com o tempo passando leve e sintonizado neste lado da cerca.

sábado, 8 de fevereiro de 2025

Chegou a tralha

 


Finalmente chegou o caminhão de mudança, aquele escolhido a dedo pois o que será carregado contém preciosidades de uma vida, ocasionando uma nostalgia pelo simples fato de que algo possa ocorrer nesta mudança de lar. O reposicionamento dos objetos e móveis alertam para a virada de chave que está prestes a acontecer causando um impacto significativo na rotina e no seguimento do tempo.

O processo se inicia com a premência da alma pela mudança e a ideia fica batendo como um sino na cachola e deste modo contumaz e obsessivo as coisas da casa começam a perambular pela mente que tenta de qualquer maneira encaixar tudo, algumas coisas, depois quase nada tudo no próximo passo.

Na alma precisa ser acomodado todos os sentimentos, os bons, os contraditórios e os espinhosos não havendo permissão para esquecimento. Eles farão parte da costura entre uma fase e outra da vida como um véu divino.

No caminhão da verdade, amontoadas as traquitanas, na hora da partida se engalfinharam na posição de liderança da carga o que resultou na batalha de o que devo deixar para trás, o que devo levar, se instalando o drama dos mutantes. Ao fim e ao cabo fica apenas o relevante afetivo físico com a alma plena de espaço. Bem-vindo.

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2025

Apenas um café

 


Dias tórridos neste canto do fim do mundo onde a praxe é a paz e a brisa parecendo que nem uma nem outra está dando as caras, deixando a prainha virada em masmorra de sol.

Encilhei um compromisso comigo mesmo em que nada no mundo me faria desistir pois a premência era um encontro para um café com uma amiga que de mim precisava – e eu dela. Me fui com a certeza que eu saberia ser heroica em qualquer circunstância, o que não se confirmou parecendo uma falsa coragem travestida de teimosia.

A cada passo nestas ruas incendiadas o meu corpo doía calcinado e nada que fosse vivo por ali estava com a consciência em dia muito menos a sanidade. A minha alma, ah, esta coitada andava beirando sair do corpo. Considerei que a hora não havia chegado. Corri para uma sala de café com ar refrigerado à espera.

Enfim ela chegou, fresca como a atmosfera do outono, sorridente e leve, me pareceu diferente. E estava. Sem suador, bronzeada levemente, batom   rosa, vestia uma túnica indiana esvoaçante, joias de acordo e o cabelo branco harmoniosamente atado num laço de fita. 

Nem esperei muito e já fui contando da minha insistência no encontro neste tempo do verão em que até os peixes nadam para o fundo do mar. Falei num fôlego que eu tinha vindo pessoalmente lhe pedir perdão.

Passado o susto, pois ela não lembrava do fato a conversa foi se desenrolando para um mundo extra, entre um café, um quindim, outro café e um pão de queijo ela foi costurando uma narrativa de um tórrido romance de meia idade com detalhes de um filme “Noir” com passagens travessas. Ao fim e ao cabo de uma hora de narrativa, arregalei os olhos, me espantei, me assustei, contive o riso. Finalmente pensei: minha amiga é louca, não, ela está no modo calcinado do sol, não, vou rezar por ela. Não! ela está apaixonada!

Nos despedimos e combinamos de nos encontrar no inverno bem rigoroso.

terça-feira, 28 de janeiro de 2025

O chaveiro

 


Por força das circunstancias da vida e do imponderável o chaveiro de parede amplo e vazio da minha casa foi alvo de ocupação por aldravas alheias, escolhidas pela vizinhança próxima que por motivos diversos necessitaram que eu mantivesse a guarda dos segredos de suas residências com ênfase na morada de praia, casa esta que possui uma alma diferente da residência com outro norte e outro viés de personalidade alhures.

A casa praieira, em princípio, não tem segredos por força da época de sua invasão que pode – por obrigação, muitas vezes – receber pessoas da família, outras nem tanto e outras sem nenhuma ligação ou contato com a história do lugar.

A casa de veraneio já vem aberta com sol e ventania em todo o espaço sem falar que inexiste caluda entre quem ocupa e tudo corre solto a começar pelas paredes que não tem ouvidos, as janelas com as cortinas esvoaçantes e fora do prumo, as areias indomáveis cobrindo móveis e utensílios pousando no chão já esparramado.

Fui escolhida pelos amigos para que retivesse a chave da morada por um tempo e as entregasse para o convidado proposto, o que me fez pensar um pouco na história de cada ambiente, das paredes impregnadas com os mantras entoados desde sua feitura, o cheiro do reboco e da tinta fresca nas divisórias recém construídas, o recanto preferido para fazer a reza, a janela de qual sala ficará frente ao mar e assim, peça por peça, foi criada com propósito especifico de habitar as cercanias do mar.

O chaveiro terá a missão de escancarar a casa com história formada de modo receptivo neste momento, para que, em tempos de verão e calor, os moradores transitórios possam escrever nas areias da praia suas histórias efêmeras. Aloha!

sábado, 25 de janeiro de 2025

Onde estão as palavras

 

Por mais que eu saiba onde os vocábulos estão, em que página, em qual dicionário, em qual livro se acomodam, não as tenho encontrado com facilidade.

Elas demoram para aparecer como se estivessem com pressão demais ou na contrapartida um certo desdém e por este motivo andam camufladas. Quem sabe sentem-se envergonhadas ao serem obrigadas a mostrar uma torrente de termos impróprios, fazendo-as corar de decepção e embaraço, preferindo não dar na vista a dita frase que poderá constranger os brios do vernáculo.

O composto em sequência de vogal e consoante que encaixa todos os nomes, pronomes, virgulas, pontuação, parágrafo e travessão formando o conjunto a ser lido sumiu como que por encanto dos rascunhos amassados e jogados ao redor do teclado.

Anda parecendo que me engano no encaixe uma vez que a grafia correta escorrega do papel, se apaga como num passe de mágica, os fonemas fogem horrorizados com o absurdo relatado nas inocentes linhas, linhas estas que vazias se oferecem para bem servir o pensamento que insiste em se expandir teimosamente, mesmo percebendo que as tintas do pensamento andam navegando em outros mares. Mares ocultos e não navegados com frases que não fazem mais sentido


domingo, 19 de janeiro de 2025

Ventos uivantes

 

Por aqui, neste pedaço de mar e terra insólito por calmo ser, o vento chega como quem não quer nada parecendo até pedir desculpas antecipadas por estar, eventualmente embaralhando o que tiver pela frente acredito até que por pura diversão, enquanto o calor grassa na areia escaldante o vento resolve brincar de esconde-esconde, aparecendo e desaparecendo como que por mágica.

Tudo inicia com uma calmaria inquietante com um ou outro sopro inusitado que levanta aqui e ali um Areial e logo se acomoda, disfarçando o que há de vir, balançando a vegetação dos cômoros, tapando as casinhas de tuco-tuco e de coruja, com este ar de normalidade e refresco.

Como os tempos são de números excedentes em tudo o que se refere aos calores de verão o primeiro a se manifestar na ventania é bem no rés do chão quando o sopro afoito açoita os comandantes moradores de abaixo do chão que ao se refestelar em águas mais quentes se aquietam no sufoco do areiame e correm para o buraco.

Depois, os humanos iniciam sua jornada de corrida ao chapéu, ao guarda-sol, à canga e o que mais houver que possa voejar nos braços do vento airoso e forte, aliás, ele sempre com um cínico sorriso nos lábios.

Mas o rumoroso destino da tempestade de areia ultrapassa a meia praia e se joga com furor nos morros, nas estepes, nos matos de eucaliptos e de pinus não havendo uma única folha que não passe o dia se virando e revirando com esta brisa indômita.

E deste jeito vai passando o tempo e as vestes, as bandeiras, as ventarolas, os banners, já esfarrapados não se cansam de ir ao mar por ser um movimento atávico de cada praieiro gaúcho. Faça sol, faça chuva, faça vento, lá estou eu!

segunda-feira, 13 de janeiro de 2025

Aos pedaços

 

No todo que se apresenta parece haver uma falha que eu não consigo vislumbrar muito bem, distinguir o acertado e o apartado, o encostado e o sumido o que me causa certa, apreensão para destacar o mínimo. Encomendei que tudo viesse no mesmo formato, com as mesmas características de um aglomerado minimamente coerente.

Me parece agora que houve ali uma ruptura que viceja por debaixo da aparência que se esconde em profunda sutileza de forma alguma passando despercebida. Talvez fosse proposital, talvez fosse o modo correto de sempre, mas não para esta ocasião que prevê desprendimento, alegria, coração aberto e braços erguidos para o abraço.

E assim segue a passo a ocasião marcada por cortes aqui e ali, prenhe de significado real, saudoso do havido em tempos idos, ansioso por novas histórias e, principalmente, tempo mais largo para cria-las.

Melhor aceitar que muito pode acontecer aos bocados restando a tarefa de juntá-los com paciência deixando que a vida trate de reunir o que por ora se apresenta em porções desconexas na sua maioria.


sexta-feira, 20 de dezembro de 2024

Desta vez

Achei por bem relevar, colocar no escanteio, fazer ouvidos moucos e mente desacordada para tudo o que se aproxima de mim a passos largos, que pode ser fruto da imaginação ou a realidade se impondo tumultuada na escuridão da vida paralela, havendo a possibilidade de que uma armadilha esteja armada só pelo gosto de açodar a minha alma, essa daí que ora anda em léguas, ora se arrasta, ora se curva sem forças.

Desta vez vou deixar que avance a intenção e me colocar em guarda na observação e, com lápis e papel em punho lá me vou registrando o que acontece como nos tempos de outrora.

De primeira mão não vou fazer nenhum juízo, vou apenas exercitar o meu raro atributo de lembrete para, na sequência, fazer registros. Estas notas, primeiramente passarão pelo escrutínio da minha emoção e com um tempo nem curto nem longo os colocarei ao rés do chão, lado a lado e mal comparando. Após isto feito, saio de cena silente, como em tantas outras investidas recebidas.

Pressenti que neste patamar vou fazer diferente ludibriando a mim mesma, alçando voo para conseguir uma vista panorâmica dos feitos em andamento no andar de baixo que está em formação.  Espero a chegada com altivez de quem está em guarda premeditada.


sexta-feira, 13 de dezembro de 2024

Cabeleira de maré

 

A tempestade anunciada com alarde sempre vem com o destino traçado de destruição, de terra arrasada, de mar nas alturas, de barrancos desmoronando, de postes em colapso, de botes e navios adernando parecendo que o fim dos tempos realmente vai chegar com dia e hora marcados, tanto para abordar-se quanto para evadir-se e no mesmo ritmo do anúncio a correria se instala  causando transtorno igual ou maior do que o anunciado vendaval com pompa e circunstância. A adrenalina começa a correr forte no sangue de bichos e gentes que arrepiam a carcaça externa e interna em posição de sentido para a luta.

O oceano enfarpelado tal como cabeleira de maré invade a meia praia parecendo desejar se evadir do furor em seu lugar de origem, o alto mar. Aderna por aqui todo tipo de personagem começando pelo velho marinheiro que se estabelece com sua parafernália de pescaria inutilizada neste momento pelo nó cego que as ondas realizaram em sua rede de pesca e que tais.

O vento surge audacioso valsando com audácia, descabelando toda sorte de árvore, arbusto e inço rastaquera não poupando ninguém enquanto assobia e canta esperando que a chuva venha lhe fazer companhia.

Tudo pronto na face da terra para a grande defesa ao clima ameaçador que paira sobre a cabeça do velho lobo do mar que espreita os acontecimentos com desconfiança uma vez que utiliza seus instrumentos adquiridos através da experiência na navegação de anos em águas bravias.

Arrebitou o nariz, apontou o dedo para o negro horizonte, alisou a cabeleira revolta e assentou. Puxou o palheiro, desdobrou sua rede, arrumou caniço e anzóis preparando-se para o desenlace que certamente ocorreria em poucos minutos. Assim como veio a notícia ameaçadora por via remota novamente vence o faro de quem habita o mar e, com singela humildade, o vento amainou, o mar retrocedeu e bichos e gentes saíram da toca ocasional renovando a fé nos ensinamentos da vida natural.

segunda-feira, 9 de dezembro de 2024

O desafio diário

O desafio naquele dia se encontrava em um certo aperto ao redor, um sinal vermelho para o movimento, um gradeado inusitado e sem propósito alçando os ambientes do entorno, um certo medo de tudo ou quase tudo levando ao encarceramento da vontade, do sorriso, da conversa deixando este dia em modo de espera desesperador.

Segui enclausurada dentro de mim e apesar do esforço hercúleo em me livrar do aprisionamento mais me enredava na teia pegajosa e invisível que abarcava além de mim o mundo ruidoso ao redor que agora teimosamente se imiscuía de afrontar o silêncio imposto por uma aparente ordem de vida desconhecida.

O olhar vagava lento e interessado em buscar na visualização a resposta para a paralisia circundante sem êxito. Dei-me conta lentamente que os impedimentos que me cercavam não tinham autoria, não vinha de nenhuma voz interior ou do além, não havia nenhum exercito barrando os caminhos, inexistiam muralhas intransponíveis e tampouco vozes expressando palavras de ordem.

Ergui a cabeça mirando pela primeira vez, depois de iniciado o estupor que me envolvia, o firmamento, que lá se encontrava impávido e misterioso iluminando a escuridão com toda a galáxia a seu dispor. Me pareceu que estava mais do que na hora de acordar do pesadelo, alçar voo e seguir na busca dos caminhos desconhecidos.

sábado, 7 de dezembro de 2024

Novo tempo de Luz

 

Levantei a cabeça com dificuldade naquele dia pois a caminhada no escuro exauria minhas forças, minha visão e meu raciocínio causando este estado de estupor frente ao que se passava à minha frente, ao lado e atrás. Nem sei direito se era real a sensação de nó na garganta, de teia em redemoinho de corda forte ou se era a conjunção difícil que o Universo emanava para todos os lados quase que sem critério me atingindo em cheio pelo visto.

Sentei na beira do caminho desolada quando percebi que a bagagem que eu carregava estava pesando demasiadamente e me pus a pensar o que poderia ser interessante descartar para que eu tivesse inciativa e coragem de me evadir daquele lugar que de uma hora para outra se tornou inóspito e desconhecido para mim. Imperativo buscar o incógnito que tanto almejo.

Ponderada, coloquei em minha frente a carga que me acompanhava e ao analisar com critério o que se apresentava percebi com clareza que o maior volume não constava de objetos físicos que eu havia recolhido às pressas. Curiosa e alerta resolvi abrir aquela maleta antiga de couro sovado. Nela eu havia guardado todas as lembranças, boas e outras nem tanto. Escrutinando o manancial de assuntos remotos pesou sobremaneira meu espirito que tombou em desalento.

Delicadamente depositei em um altar improvisado na beira do caminho todo o peso que eu sentia, orando ao Pai Eterno que enviasse os Anjos de Luz para resgate. Neste momento surgiu brilhante no horizonte o túnel do Novo Tempo. Aleluia.

 

O Apagar - Contos do Coração

  “Eu apaguei pouca coisa de mim porque sempre imagino que servirão para reescrever outro capítulo da história, corrigir o que me parecer se...