sábado, 3 de outubro de 2026

Verônica e o Ar que Respira - Contos de Ficção

 


Verônica, logo após o amanhecer morno na beira do mar, sentiu que a leve brisa a induzia a uma pequena caminhada pelo jardim e, após, rumar até a beira do mar - que a deixara encantada. Em ocasião anterior percebeu que havia uma energia diferente nos seus circuitos e o cuidado programado era prestar atenção porque sentia um aquecimento nas suas ferragens e poderia ser apenas um sinal. Apenas um, por ora.

Sentou-se com desenvoltura na beira do mar deixando os seus pés – um de resina e outro de metal – receberem os cardumes de peixe-rei nadando na crista das marolas. A Cyborg estava ansiosa para descobrir o que esta percepção tátil entre componentes tão diferentes do seu corpo iria transmitir; e se ela – muito mais importante – o sentiria.

Verônica sentia-se confortável ao receber o carinho deste vasto oceano com comportamento imprevisível - porém transparente - na sua percepção matemática. Em meio a este processamento fora do cotidiano, mais lento na conclusão, teve o impulso de levantar seus olhos digitais, alcançando o horizonte e se perdendo na imensidão deste lugar que a acolheu.

Neste ponto de divagação, calcada na dualidade robótica, de um lado e orgânica de outro, entendeu que na altura da arrebentação, se aproximava célere um barco pesqueiro, de médio porte, com suas velas arriadas. Ela se ergueu para verificar com mais detalhe o que estava acontecendo permanecendo ali, firme e sem expectativa com o centro do peito calibrando os circuitos.

Enquanto isso, os aldeões da vila chegaram para o arrasto da rede com o resultado da pesca. Para surpresa de Verônica as pessoas não se espantaram com sua aparência androide, cumprimentando-a cordialmente – saudação ao qual ela respondeu com um aceno de cabeça: afinal, a vocalização do sistema consistia em ruídos guturais.

A recepção continuava em andamento, com as famílias já separando os peixes, alguns limpando e outros armazenando o alimento em grandes cestas de vime. As crianças corriam na volta de tudo não demonstrando medo nem espanto ao se defrontarem com Verônica. Divertidos, tocavam os pés de metal, o braço robótico e já se afastavam. Ela deixou-se ficar candidamente sem se atrever a interagir, parecendo a quem olhasse de longe que ali estava uma imagem futurista. Por este motivo ela - lentamente - se dirigiu ao chalé, retirou o matagal de espinhos concluindo que não havia mais motivo para se esconder.

 

 

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