Eu andava pela casa em passos
trôpegos, flanando entre a dor e a tristeza, quando recebi aos meus pés através
da soleira da porta, o despacho de um envelope que - à primeira vista - parecia
ser um convite, mas não um bilhete comum. Ao resgatar a peça do tapete macio da
sala, percebi que estava impregnado de um aroma de sândalo, a carta tinha uma
textura de cetim com suas dobras bordadas em letras assimétricas e uma grafia
desconhecida.
A lentidão do meu corpo em se
movimentar expressava o esforço incomum para organizar os pedacinhos do meu
espirito que resolveu se dissolver por um segundo, seguindo caminhos diversos e
deixando que o meu íntimo vagasse a esmo.
Lembrei dos últimos tempos em
que nada ao redor havia se movimentado, e, quanto mais o silêncio invadia a
vida, mais eu tinha certeza que em nenhum momento houve algum sussurro que sugerisse
a chegada de um recado com arabescos dourados, chamando a atenção. Fiquei ali,
com a missiva em mãos, sentindo a frieza do momento que se esforçava em ser importante.
A ocasião delicada chegou sem
aviso, entrou na porta sem fazer ruído, sentou-se no canto da dor como se
exigisse a participação em um banquete em que corpo e alma estão no limiar suspenso
da busca de sentido para a existência de chagas na sacudidela do vento
intermitente, como se fosse um acaso. Meus passos se encontram em trava secreta
recusando qualquer fantasia do desconhecido que se ofereça.

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