sexta-feira, 23 de outubro de 2026

O Convite - Crônicas

 


Eu andava pela casa em passos trôpegos, flanando entre a dor e a tristeza, quando recebi aos meus pés através da soleira da porta, o despacho de um envelope que - à primeira vista - parecia ser um convite, mas não um bilhete comum. Ao resgatar a peça do tapete macio da sala, percebi que estava impregnado de um aroma de sândalo, a carta tinha uma textura de cetim com suas dobras bordadas em letras assimétricas e uma grafia desconhecida.

A lentidão do meu corpo em se movimentar expressava o esforço incomum para organizar os pedacinhos do meu espirito que resolveu se dissolver por um segundo, seguindo caminhos diversos e deixando que o meu íntimo vagasse a esmo. 

Lembrei dos últimos tempos em que nada ao redor havia se movimentado, e, quanto mais o silêncio invadia a vida, mais eu tinha certeza que em nenhum momento houve algum sussurro que sugerisse a chegada de um recado com arabescos dourados, chamando a atenção. Fiquei ali, com a missiva em mãos, sentindo a frieza do momento que se esforçava em ser importante.

A ocasião delicada chegou sem aviso, entrou na porta sem fazer ruído, sentou-se no canto da dor como se exigisse a participação em um banquete em que corpo e alma estão no limiar suspenso da busca de sentido para a existência de chagas na sacudidela do vento intermitente, como se fosse um acaso. Meus passos se encontram em trava secreta recusando qualquer fantasia do desconhecido que se ofereça.

 

 

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