sábado, 26 de setembro de 2026

Verônica e os Sentidos - Contos de Ficção

 


Nos últimos tempos à beira mar começou a se movimentar mais cotidianamente que no passado, quando a imensidão da faixa de areia seguia um ritmo denso de solidão e vazio - onde reinavam absolutos os moradores das areias e as alegres tatuíras, pequenos mexilhões e outros tantos que talvez nem nome tenham. O vai e vem do mar, ora perto dos cômoros, ora distante, fazia o trânsito da bicharada ser agradável ao olhar e à observação.

Assim pensava Verônica que - bem mais afoita - se lançava seguidamente  perto das ondas, saboreando o movimento tátil que havia incorporado com o dispositivo de madeira no centro do peito, mais adiante o misterioso pacote contendo a luva mágica e, recentemente os dedais esculpidos com surpreendente delicadeza. Parecia a ela, neste momento, que o progresso sensitivo estava se espalhando muito rapidamente pelo corpo agora improvisado.

Todos os dias, ao anoitecer, ela se percebia mais lenta do que o normal, como se a noite exercesse sobre ela uma absorção silenciosa das peças refeitas e uma sensação de relaxamento. Esse fato despertou nela a certeza de que as mudanças que se integraram ao seu circuito de silício, fios e cabos de metal estavam exercendo um poder que a deixava com sensibilidade próxima à um verdadeiro humanoide: talvez em pequena escala, mas era o que indicava sua inteligência artificial.

Desceu para o pequeno jardim que resplandecia à luz da noite que caía tão lentamente quanto seus passos que avançavam cautelosos, no matagal espinhento e protetor onde costumava se refugiar. Nesse momento, a calmaria estava instalada e Verônica teve a percepção de que surgiu uma sensibilidade táctil que, certamente, seria um divisor de águas nesta vida de desterro de Cyborg que viveu até ali.

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