Existe uma primavera para
todos e esta sempre vem enfeitada, de flores do campo, da brisa suave e da
brotação desenfreada da natureza que, com pressa de nascer, germina em qualquer
fenda de calçada, mesmo aquelas com grande movimento, sem se importar que sejam
pisoteadas. Existe uma urgência em se cumprir o rito da data e o beija-mão à
terra se torna fundamental.
Permanece por um bom tempo um
correr desenfreado como se na vida as coisas tivessem relógio ponto, indicando
a hora de começar e terminar. Quem sabe a estação represente a fuga do frio, da
maresia, do oceano revolto, dos respingos da chuva, das conchas se evadindo do
fundo do mar e das espumas que parecem flocos de neve.
Eu enxergo a Primavera com um
espírito aquietado aguardando que se manifestem os quase inaudíveis ruídos das
sementes que foram espalhadas pelas ventanias invernais, pelo córrego de águas
cristalinas que viajam por entre as tantas valas do fundo da terra, das folhas
brotadas que correm pela sarjeta das últimas chuvas, das flores com pétalas
antigas que buscam a luz para a renovação.
Meu pensamento observa o
movimento imaginando quais serão os primeiros botões que se abrirão em mim e
que eu ainda não tenha visto e revisto. Qual matiz a florada da beira do riacho
em frente irá me oferecer, quais caramujos deixarão seu brilho na minha calçada.
Vou verificar se o capim verdejante que cobre os degraus do alpendre já iniciou
sua jornada de cobertura deslizante e macia, se as ervas da primavera já
precisam da água quente, se as folhas secas já se acomodaram nos canteiros, se
os galhos soltos se recolheram no recanto da poda. Tudo possui uma oscilação
programada para mudança e o meu coração jaz, ali, aberto.

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