Os ares praianos, onde está
instalado o casebre de Verônica, estão muito diferentes de quando ela ali se
acomodou. Surgiu no entorno da casa uma macega densa e verdejante, que
inclusive apara o areal que as grandes ventanias costeiras provocam no inverno,
que já começa a dar sinais de enfraquecimento. Por incrível que pareça, o corpo
metálico da Cyborg, devagarinho, deixa de ranger, os estalidos e as faíscas
elétricas corrigem detalhes ocultos na feição gestada em um misto de elementos
ferrosos, e resinas de alta performance.
Uma nova bancada de
ferramentas surgiu a partir de caixotes de madeira, algo que encantou Verônica
a partir do momento em que, intuitivamente, resignou-se a experimentar
componentes de outros materiais, como, por exemplo a madeira. O material é
abundante na extensão da beira do mar, deixando a paisagem lúdica e
encantadora. A agilidade conquistada nos últimos tempos remete uma nova vida da
máquina original descartada em sua origem. Ela não sabe direito todas as
mutações, mas isto não importa. A mudança precisa fazer sentido.
Verônica, a cada dia, sentia a
necessidade de que suas mãos - uma de ferro e outra de resina – tivessem uma
sintonia mais fina com as arrumações que ela precisava concluir na casa, no
telhado, no jardim e nos móveis precários, além do polimento dos metais e de imergir
a dualidade de suas mãos em águas salgadas. Seus dedos metálicos possuíam a
rigidez do metal e o balanço cadenciado da máquina, escapando-lhe da
possibilidade de completar tarefas mais delicadas.
O dia estava lindo, com um sol
aquecendo o telhado de zinco suavemente; o entorno estava tranquilo, com uma
aparência de evasão dos moradores. Verônica ainda não se acostumara com a
repentina frequência de humanos por ali, escapando sempre para o seu
esconderijo feito de espinhos.
Aproveitou a tranquilidade do
dia abrindo a caixa de madeira que continha o ferramental mais antigo que ela
poderia imaginar e, conforme consulta ao seu Manual da Verônica, tinha sido
resgatado há muito tempo, na intenção de
refazer algumas engrenagens de ferro que a isolavam do mundo exterior.
Com a habilidade que os chips de silício impunham à sua estrutura, ela espalmou
suas mãos na bancada de trabalho.
Correu ao jardim, onde ela
havia colecionado muitos troncos de árvores que vieram da maré, que caíram das árvores
ao seu redor ou mesmo arbustos com uma rama muito valiosa em relação à maciez e
às propriedades de suas resinas e óleos naturais. Escolheu o mais adequado e
voltou à bancada, preparada para esculpir os “dedais de madeira”, uma nova
gambiarra em sua estrutura. O que ela não sabia é o quanto essa mudança
afetaria sua vida.

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