sábado, 12 de setembro de 2026

Os Dedais de Verônica - Contos de Ficção

 


Os ares praianos, onde está instalado o casebre de Verônica, estão muito diferentes de quando ela ali se acomodou. Surgiu no entorno da casa uma macega densa e verdejante, que inclusive apara o areal que as grandes ventanias costeiras provocam no inverno, que já começa a dar sinais de enfraquecimento. Por incrível que pareça, o corpo metálico da Cyborg, devagarinho, deixa de ranger, os estalidos e as faíscas elétricas corrigem detalhes ocultos na feição gestada em um misto de elementos ferrosos, e resinas de alta performance.

Uma nova bancada de ferramentas surgiu a partir de caixotes de madeira, algo que encantou Verônica a partir do momento em que, intuitivamente, resignou-se a experimentar componentes de outros materiais, como, por exemplo a madeira. O material é abundante na extensão da beira do mar, deixando a paisagem lúdica e encantadora. A agilidade conquistada nos últimos tempos remete uma nova vida da máquina original descartada em sua origem. Ela não sabe direito todas as mutações, mas isto não importa. A mudança precisa fazer sentido.

Verônica, a cada dia, sentia a necessidade de que suas mãos - uma de ferro e outra de resina – tivessem uma sintonia mais fina com as arrumações que ela precisava concluir na casa, no telhado, no jardim e nos móveis precários, além do polimento dos metais e de imergir a dualidade de suas mãos em águas salgadas. Seus dedos metálicos possuíam a rigidez do metal e o balanço cadenciado da máquina, escapando-lhe da possibilidade de completar tarefas mais delicadas.

O dia estava lindo, com um sol aquecendo o telhado de zinco suavemente; o entorno estava tranquilo, com uma aparência de evasão dos moradores. Verônica ainda não se acostumara com a repentina frequência de humanos por ali, escapando sempre para o seu esconderijo feito de espinhos.

Aproveitou a tranquilidade do dia abrindo a caixa de madeira que continha o ferramental mais antigo que ela poderia imaginar e, conforme consulta ao seu Manual da Verônica, tinha sido resgatado há muito tempo, na intenção de  refazer algumas engrenagens de ferro que a isolavam do mundo exterior. Com a habilidade que os chips de silício impunham à sua estrutura, ela espalmou suas mãos na bancada de trabalho.

Correu ao jardim, onde ela havia colecionado muitos troncos de árvores que vieram da maré, que caíram das árvores ao seu redor ou mesmo arbustos com uma rama muito valiosa em relação à maciez e às propriedades de suas resinas e óleos naturais. Escolheu o mais adequado e voltou à bancada, preparada para esculpir os “dedais de madeira”, uma nova gambiarra em sua estrutura. O que ela não sabia é o quanto essa mudança afetaria sua vida.

 

 

 

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