...“O silenciar chegou a mim muito pequena, e me apeguei
tanto a ele que agora faz parte de toda caminhada - mesmo que seja barulhenta -
fazendo meus ouvidos moucos sempre que possível.
Meu corpo infantil silenciava com veemência ao sumir na
grande poltrona da sala exclusiva para visitantes, para a qual frequentemente
fugia.
O silêncio me acompanhava sempre que podia, inclusive,
durante a travessia para a escola, sobre o manto da minha capa de chuva de
feltro preto com botões dourados.
Não importa o barulho que o tempo faz ao avançar, o silenciar
está sempre a postos no equilíbrio do insano movimento.
O silêncio que habita em mim resiste a todo movimento que
busca romper o ar que respiro.
Quando a memória falha, o silêncio vem em socorro para
restaurar o que aparentemente foi apagado por falta de melhor assunto ou por
não ter o que dizer.
Meu espirito tem muitos amigos fieis, mas nenhum como o
silêncio protetor - do ruim que vou ter de ouvir, e do bom a que vou aderir.
Aprendi a escutar o silêncio rude em alta voz assim como as
juras de amor que não chegaram a ser proferidas.
Meu refúgio é o silêncio, sendo ele o cofre do que se passa
na minha alma.”

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