quarta-feira, 2 de setembro de 2026

A Sombra - Fábulas

 


Minhas caminhadas na beira do mar são frequentes por serem – talvez – um movimento atávico; eu sempre sinto uma simbiose com o oceano. Tenho convicção de que é justamente ali – com sol, com chuva, com vento, com gente ou sem - é onde devo estar. Todos os meus pensamentos migram simploriamente para a costa, muito antes que eu chegue lá, deixando o restante praticamente vazio de sentido.

Quando tomo o caminho do mar, o dia iluminado me acompanha projetando a minha sombra, que quase nunca percebo. Ela me segue em silêncio, para poder, no tempo certo, segredar algo que somente através da claridade difusa do dia se apresentará frente a frente.

Quando minhas tristezas se acumulam, começam a vazar em linhas muito tênues, atingindo a minha alma que as recebe, porém, deixando em aberto as chagas que aquele rio de dor causou. Estão arrevesadas no sentido do sofrimento, sem saída oportuna. É sempre neste momento que os meus pés me conduzem ao fiel depositário de preces e indagações. No arrasto de mim vem minha sombra que, ao invés de apenas projetar meu corpo no chão, me empurra com a força que reflete o que me vai por dentro.

Ao chegarmos as duas, lado a lado, enfrentamos as delicadas espumas praianas que irradiam o brilho da silhueta no encontro fatal das ondas morredouras. Sem que eu pudesse perceber, o meu corpo copiado adentrou o mar gelado, levando nas costas a mochila repleta de pontos obscuros. E assim ela se foi mar adentro, me deixando novamente sozinha na praia deserta.

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