terça-feira, 5 de maio de 2026

O Esconderijo do Medo

 


Fiquei olhando para a balança que fica bem à vista, em um canto da sala. Todo dia, ela, que tem feição de modernidade, me encara fortemente através de um grosso vidro que aguarda, acintosamente, meus pés magrelos pousarem, para escanear minhas entranhas e imprimir no ar o veredito.  E assim, o valor do quanto peso sai para o mundo, sem perguntar por que, sem investigar o que acontece dentro de mim ou se existe algum emaranhado de células que anda vociferando e estrangulando minhas vísceras. O olhar elétrico, para além da transparência, oscila para mais e para menos, apenas consultando o total de carne e osso.

Neste dia luminoso, com sol ardente e o frio enregelando meus lábios decidi afundar a resposta grifada além da luz no fundo do armário, junto ao pacote que guarda palavras alheias sem consistência, ordem e origem. Debrucei-me sobre o visor digital que não pisca, na contação de “um mais um” da vida, autorizando e interpretando de tudo sem usar a verdade da escrita cursiva.

Percebi, a tempo, que a vida flui na graça do indeterminado, deslizando pelas intrincadas entranhas como um passageiro cuidador que não se utiliza de numerais para considerar algum mais, menos, igual ou maior. Ao enterrar o mostrador sem alma, busquei dentro de mim a intuição do que poderia acontecer dentro da composição física que, vez ou outra, se manifesta contrária a medições desconhecidas. E foi assim, um pouco sem pensar, que comecei a declamar em baixa voz, para quem quisesse ouvir, que a existência navega por dentro do corpo em um barco cuja rede de pesca se utiliza do resultado que o cuidador pratica.

 

 

 

 

 

 

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