O tempo em sementes se
derramou entre os aldeões como um bálsamo que somente Vanisa poderia induzir,
elevando o espírito do vilarejo ao patamar previsto pelo olhar oculto que reina
nas bordas de sua origem. Ela deixou para trás o pequeno grupo que a
recepcionou, esboçando o primeiro sorriso de reconhecimento que até este
período não havia sido devidamente absorvido. A iniciativa desfez o nó da
dúvida de sua parição, ainda vaga e mística.
A retirada das sandálias foi
uma atitude repentina porque Vanisa sentiu que, de agora em diante, suas
passadas aterravam em solo real, se machucando no pedregulho, queimando no chão
batido do sol de verão e gelando nas ondas frígidas do inverno. Descalça,
sentindo o pó da terra se levantando entre os dedos, desceu a encosta até o
primeiro degrau do refúgio junto ao mar que se avizinha em alvorotadas ondas
ou, em tantas outras, mansas como a aragem do outono.
A descida da montanha veio
acompanhada de múltiplas palavras que rondavam pela primeira sua vez mente até
então enevoada e reticente por não conseguir engendrar o histórico do sequestro
de ontem, para a presença de agora.
Vanisa, com velada surpresa, ao entrar no recinto rústico e pequeno da
morada deparou-se com uma nova mobília instalada em frente à janela. A mesma
abertura que arrebatou seu coração, inicialmente sem luz, agora se apresenta
sem cerimônia.
Ali estavam acomodadas uma mesa e cadeira de origem naval,
parecendo ter sido transportadas de barco e a estrutura estava envolvida por
algas marinhas, cracas recentes e mariscos em fuga. Vanisa encarou a novidade
como um reflexo do monstro marinho que a despejou em águas profundas, trazendo
na alma as lendas que ventilaram a época no seu íntimo. A novidade encontrou
Vanisa. Ainda inspirada pelas palavras que a perseguiram após a entrega das
sementes, ela percebeu a gaveta coberta de limo. Não havia sombra de dúvida:
ali jaziam elementos da sua memória extraviada.

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