Eu sempre tenho companhia. Tudo
inicia na madrugada quando a minha mão procura, dentro do negrume da noite, o
dial do rádio antigo que chia como bule esmaltado: entra no ar um zum, zum que
se espalha como gravetos que crepitam na fogueira acesa. É neste minuto longo do dia que, a voz baixa na
sombra do entardecer reverbera falas que muitas vezes, parecem vir de algum
lugar longínquo, causando uma leve intimidação. O áudio valvulado desliza no ar
como veludo macio, aquecendo a lembrança desta segunda voz, que me envolve
desde criança - adolescente, adulta - e
agora com a escuta tênue percebida pelo guardião da estática.
Todos os dias eu ouço o tempo
passando ao trocar de estação, na busca da sonoridade perfeita, que altiva,
esconde o rugir das ondas do mar enaltecendo uma intimidade surpreendente entre
quem escuta e quem fala. A brandura da estática ameniza a solidão do faroleiro,
do convento e eremitas modernos, os vigias de todos cantos. A madrugada se
torna a faísca para momentos lúdicos na busca de uma sonoridade de tempos
passados, que invade o recinto através de dedos saudosos.
Nas manhãs, tardes e noites, desconhecidos
ouvintes rolam o dial sem medo de errar, na procura incessante de uma voz que
possa lhes dar o conforto de estar no mundo e tentar entender a beleza das
coisas imperfeitas. É deste modo que a vida se apresenta como metáfora,
correndo por um alarido de esperança que surge do emaranhado de fagulhas
elétricas.

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