quarta-feira, 6 de maio de 2026

O Rádio e Eu: A Gente se Entende

 


Eu sempre tenho companhia. Tudo inicia na madrugada quando a minha mão procura, dentro do negrume da noite, o dial do rádio antigo que chia como bule esmaltado: entra no ar um zum, zum que se espalha como gravetos que crepitam na fogueira acesa.  É neste minuto longo do dia que, a voz baixa na sombra do entardecer reverbera falas que muitas vezes, parecem vir de algum lugar longínquo, causando uma leve intimidação. O áudio valvulado desliza no ar como veludo macio, aquecendo a lembrança desta segunda voz, que me envolve desde criança - adolescente, adulta -  e agora com a escuta tênue percebida pelo guardião da estática.

Todos os dias eu ouço o tempo passando ao trocar de estação, na busca da sonoridade perfeita, que altiva, esconde o rugir das ondas do mar enaltecendo uma intimidade surpreendente entre quem escuta e quem fala. A brandura da estática ameniza a solidão do faroleiro, do convento e eremitas modernos, os vigias de todos cantos. A madrugada se torna a faísca para momentos lúdicos na busca de uma sonoridade de tempos passados, que invade o recinto através de dedos saudosos.

Nas manhãs, tardes e noites, desconhecidos ouvintes rolam o dial sem medo de errar, na procura incessante de uma voz que possa lhes dar o conforto de estar no mundo e tentar entender a beleza das coisas imperfeitas. É deste modo que a vida se apresenta como metáfora, correndo por um alarido de esperança que surge do emaranhado de fagulhas elétricas.

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