sexta-feira, 9 de janeiro de 2026

Maré Interna

 


Desta vez não foram meus pés que me levaram ao mar mas o meu pensamento confuso que, entre pernas melancólicas, não sabia direito onde se abrigar vagando para lá e cá, perdido, ansioso, parecendo ser levado por alguém interno e que tinha muito poder, surgindo ali uma incapacidade minha de descobrir  de onde vinha, tal era o amargor que alinhava a caminhada teimosa do meu corpo sendo quase impossível estancar o dilúvio nostálgico que me acometia, sem pedir licença e me passando a frente no caminho.

Mesmo assim avancei sobre as ondas rezando para que meus pés tivessem nadadeiras para poder penetrar nesta água revolta, hoje, tão igual a mim e, assim, poder me comparar com o desalinho de suas ondas transversas, do recuo forte para dentro do oceano parecendo secar a terra para depois se arrepender, dar meia volta errando a trilha daquele pedaço especifico de praia que tem sua personalidade conhecida.

Parei para apenas pensar no que estava ocorrendo no meu ser físico que parecia estar tomando a dianteira - assim como o mar – agindo sem perguntar, dar uma dica ou um sintoma para ter a bondade de me avisar e mostrar o que estava por vir. Foi neste clima que me dei de cara com a minha alma, esta moça velha, açoitada sem saber por quem já há algum tempinho. Ela estava muito apagada, quase translucida e se fosse um corpo eu diria, transparente.

Mergulhei na água tépida de verão e por ali me deixei escorregar junto as pequenas ondas que se digladiavam umas com as outras fazendo meu corpo chacoalhar, sem se defender. Deixei que a natureza me desse a resposta para os meus dois componentes em conflito – corpo e mente.

Imaginei que a ordem deveria ser restaurada mesmo sem ter conhecimento do elemento causador do distúrbio e assim, levantei-me e iniciei a volta para a terra, agora, pensando que em mim – como no mar – o fluxo e refluxo revoltou as profundezas trazendo lembranças amáveis como sementes retirando de mim salgadas lágrimas curadoras que mansamente se misturaram na cálida água de Sal do Mar.

Um comentário:

Anônimo disse...

O banho de Mar cura tudo, até as dores da Alma! Linda Crônica! Como sempre, em lindas e doces Palavras Tu dizes coisas que Nós gostaríamos de Expressar! Parabéns! Beijo😘

Alegoria

  Encontrei aquele rolo no meio dos meus guardados, aqueles que vieram de longe aportar por aqui para todo o sempre exatamente como determin...