quinta-feira, 5 de março de 2026

O Palco sem Fantasia

 


Desci a pequena escada do alpendre de cabeça baixa sem pensar em nada porque estava aguardando para ver como a paisagem de sempre iria me surpreender. Qual não foi minha surpresa ao encontrar o vazio completo ao meu redor como se a vida em volta houvesse sumido ou eu tinha sido transportada com casa e tudo para algum lugar desconhecido. Fiquei ali, paralisada observando o nada a me rodear, o silêncio ensurdecendo meus ouvidos e o tempo gelado açoitando meus ossos.

Dei meia volta e entrei na casa para verificar minhas páginas escritas procurando algum registro do dia anterior que esclarecesse o motivo de tal amplitude ao meu redor. Corri para minha bússola torcendo que apontasse um norte e percebi que ela estava tão estagnada como todos os outros elementos.

Cabisbaixa, como último recurso procurei o alforje que guarda meu trânsito pela estrada da vida e também não o encontrei parecendo que naquele dia eu apenas brotei de uma terra deserta. Ao mesmo tempo pressenti que as minhas referências haviam me abandonado, meus personagens retiraram suas máscaras assim como se evadiu a troupe que povoava estas terras. Ao passar meus olhos ao redor percebi que a casa estava vazia, contendo apenas um vestido branco aos meus pés, o qual rapidamente vesti, pois não havia percebido que o meu corpo até então restava nu.

Vesti-me vagarosamente tentando entender a química da vestimenta que não fazia parte do meu costume do dia a dia tendo a sensação de algo muito suave me envolvendo fazendo com que os meus passos descessem com suavidade os poucos degraus até aquele chão do nada que frenteava minha antiga morada e que, ao pisar nesta terra nova, surgiu na minha frente uma estrada bem construída, igualmente sem vida. Me enchi de coragem ao perceber que esta estrada foi colocada ali para que eu tivesse a oportunidade de criar no final do caminho um palco que não terá máscara, fantasia, distância, ruído, abandono.

 

 

 

 

 

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