O mar rugiu em altos prados por dias com suas ondas se
desencontrando em seu leito e, volta e meia, correndo até a beirada dos cômoros
carregando alguns elementos do seu corpo marítimo que retornam misturados com
materiais intrusos.
Aproveitando o destempero resolveu destinar uma lição exemplar aos
enxeridos com o propósito de devolução ao lugar de origem ficando a cargo da
altiva vegetação dos abismos atuar exemplarmente na restituição dos oferecidos
do sal.
Estes dias me deixaram na escuta pensando que talvez o mar tenha
resolvido falar mais alto para que eu o ouça plenamente, o que me fez sentir
prestigiada. Afinal, não ando querendo ouvir tudo de todos, mas, para ele
sempre terei escuta em “alto decibel” mesmo que eu tenha que me acercar de sua
margem.
Estava flanando nestes pensamentos quando senti uma brisa forte
gelada que falou com meus ossos em uma conversa direta o que me acendeu uma
suspeita que, talvez, tenha sido uma bondade do rigoroso em me alertar soprando
cândida e friamente que ele chegará por aqui no fim do mundo em breve trazendo
em seus braços as camadas insolentes do seu patrão – o clima severo – a quem
ele serve fielmente.
Decidi enfrentar o sorriso esfriado mostrando dentes de gelo,
barba polvilhada de neve, cabelos eriçados pela umidade, olhos lacrimosos do
vento inclemente, botas já rotas do longo caminho do outono até aqui. Ao
enfrentar esta figura, percebi a presença no braço direito de uma bolsa
volumosa e muito antiga com alguns fiapos soltos.
Compreendi que deveria abrir o alforje e qual não foi a minha
surpresa ao encontrar ali todo aparato para me aquecer: desde lenha para
lareira, passando por um bule de café, outro de chá, uma lata de biscoitos,
mantas, gorros de lã trançados nas cores que aprecio, meias de lã e botas novas
para trilhar caminhos por aí. O sorriso estanque pelo vento sibilante
segredou-me - Cheguei. Eu sou o Inverno.

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