A transição
do modo verão, cor de fogo, para o outono cor de prata, ainda não aconteceu nos
calendários do céu, mas, em minha andança por entre rios e mata nativa pude
entrever alguns sinais em meio ao agreste e verdejante jardim da praia que,
agora, se beneficia de toda calmaria curtindo, inclusive, os ventos mais
gelados e intermitentes.
Todos
curtem a novidade da mudança de estação mesmo que já a conheçam. Afinal, o ritual
sempre poderá arrecadar novidades e deste modo lúdico e silencioso a bicharada
começa a surgir por debaixo da terra arrastando inço, raízes secas, folhas
mortas e o que mais tiver sido soterrado. Percebi que os altos galhos, além de
focarem no horizonte vergavam seus gravetos para tomar pé da situação na
superfície. São o vigia das alturas.
Segui meu
rumo rodeando os jardins bem cuidados de todas as casas para poder sentir com o
coração o que se passava dentre flores, arbustos e árvores que se espremiam
ansiosas na espera do tempo em que, pela sua natureza, iriam perder um pouco –
ou muito - do seu corpo, contando a partir da raiz, passando por caules, galhos
altos médios e baixos, heras adjacentes. Os canteiros possuem a identidade do
cultivador e gosto de observar a parecência do jardineiro com o cultivado.
Tomando a
direita da rua saltei os olhos para o canteiro que se apresentava a mim de uma
forma muito encantadora com um lado da calçada, rente ao muro, ponteada com
lindas hastes que bailavam ao vento que me pareceu soprar para elas. Resolvi
que eu iria classificar o autor desta obra como sendo uma pessoa delicada e com
um movimento importante de vida.
Segui o
passo porque na minha frente surgiu um jardim muito pequeno, em uma casa muito
simples, com muro frágil composto por uma cerca elegantemente mambembe. Meu
olhar se deitou na extensão de uma pequena área, pontilhada com muitas cores,
entremeio verdejante de todos os matizes, pétalas de uma e tantas flores,
todas, delicadamente entrelaçadas em seu caule, formando um lindo balé. Rumei
de volta a casa com o coração cheio de esperança nos ventos suaves da beirada e
o emaranhado sutil do canteiro simplório vindo me contar que a Vida não tem
segredo.

Nenhum comentário:
Postar um comentário