quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026

Entre o Fogo e a Prata: Sinais de Outono

 


A transição do modo verão, cor de fogo, para o outono cor de prata, ainda não aconteceu nos calendários do céu, mas, em minha andança por entre rios e mata nativa pude entrever alguns sinais em meio ao agreste e verdejante jardim da praia que, agora, se beneficia de toda calmaria curtindo, inclusive, os ventos mais gelados e intermitentes.

Todos curtem a novidade da mudança de estação mesmo que já a conheçam. Afinal, o ritual sempre poderá arrecadar novidades e deste modo lúdico e silencioso a bicharada começa a surgir por debaixo da terra arrastando inço, raízes secas, folhas mortas e o que mais tiver sido soterrado. Percebi que os altos galhos, além de focarem no horizonte vergavam seus gravetos para tomar pé da situação na superfície. São o vigia das alturas.

Segui meu rumo rodeando os jardins bem cuidados de todas as casas para poder sentir com o coração o que se passava dentre flores, arbustos e árvores que se espremiam ansiosas na espera do tempo em que, pela sua natureza, iriam perder um pouco – ou muito - do seu corpo, contando a partir da raiz, passando por caules, galhos altos médios e baixos, heras adjacentes. Os canteiros possuem a identidade do cultivador e gosto de observar a parecência do jardineiro com o cultivado.

Tomando a direita da rua saltei os olhos para o canteiro que se apresentava a mim de uma forma muito encantadora com um lado da calçada, rente ao muro, ponteada com lindas hastes que bailavam ao vento que me pareceu soprar para elas. Resolvi que eu iria classificar o autor desta obra como sendo uma pessoa delicada e com um movimento importante de vida.

Segui o passo porque na minha frente surgiu um jardim muito pequeno, em uma casa muito simples, com muro frágil composto por uma cerca elegantemente mambembe. Meu olhar se deitou na extensão de uma pequena área, pontilhada com muitas cores, entremeio verdejante de todos os matizes, pétalas de uma e tantas flores, todas, delicadamente entrelaçadas em seu caule, formando um lindo balé. Rumei de volta a casa com o coração cheio de esperança nos ventos suaves da beirada e o emaranhado sutil do canteiro simplório vindo me contar que a Vida não tem segredo.

 

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