O sol se
escondeu, parecendo querer disfarçar a mudança do clima que anda se anunciando,
cheia de propósito. Já imaginando que seu reinado será agitado, ele afia seus
quadrantes para que entrem em campo antes mesmo de receber o sinal.
Por aqui,
comecei a perceber uma mudança significativa no meu figurino diário, me
colocando em dúvida sobre qual dos cabides eu iria enfrentar: na escolha de uma
linda saia que enfeite meu corpo, ou um xale que envolva meus braços,
protegendo meu coração e seu entorno de qualquer resfriamento repentino. Um par
de meias compatível com a linda sapatilha, que será trocada pelo velho chinelo
de borracha de beira de praia — esfolado de andarilhar por entre os elementos
quentes do verão, cedendo ao próximo tempo de um caminhar mais leve e macio.
Como em um
passe de mágica, meu armário abriu suas portas de par em par e, com muita
energia, expôs os cabides dos modelos de verão para que eu tivesse certeza de
que é chegada a hora de fazer a troca da fantasia do calor. Esta, no mais das
vezes, nem por mim é escolhida: ela está em todo e qualquer lugar de uma beira
de praia. Porém, com satisfação, assisto ao recolhimento da palheta de cores
esfuziante ceder lugar para o tom do recolhimento no pensar.
Assim como
este figurino teve decretada sua efemeridade, surgiram as caixas perfumadas que
se abriram com apenas um toque, expondo o conteúdo que encheu meu espírito de
paz, com meu coração palpitando devagar no aguardo do conforto que se
aproximava. E assim foram desfilando na minha frente as mantas que estarão à
minha espera ao pé da lareira, o aparelho de chá, um caderno em branco, lápis
de ponta fina e cabeça de borracha para riscar o engano, anotações preciosas, e
meu rádio de pilha ressoando na madrugada que virá.

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