domingo, 8 de março de 2026

A Palheta de Cores se Recolhe

 


O sol se escondeu, parecendo querer disfarçar a mudança do clima que anda se anunciando, cheia de propósito. Já imaginando que seu reinado será agitado, ele afia seus quadrantes para que entrem em campo antes mesmo de receber o sinal.

Por aqui, comecei a perceber uma mudança significativa no meu figurino diário, me colocando em dúvida sobre qual dos cabides eu iria enfrentar: na escolha de uma linda saia que enfeite meu corpo, ou um xale que envolva meus braços, protegendo meu coração e seu entorno de qualquer resfriamento repentino. Um par de meias compatível com a linda sapatilha, que será trocada pelo velho chinelo de borracha de beira de praia — esfolado de andarilhar por entre os elementos quentes do verão, cedendo ao próximo tempo de um caminhar mais leve e macio.

Como em um passe de mágica, meu armário abriu suas portas de par em par e, com muita energia, expôs os cabides dos modelos de verão para que eu tivesse certeza de que é chegada a hora de fazer a troca da fantasia do calor. Esta, no mais das vezes, nem por mim é escolhida: ela está em todo e qualquer lugar de uma beira de praia. Porém, com satisfação, assisto ao recolhimento da palheta de cores esfuziante ceder lugar para o tom do recolhimento no pensar.

Assim como este figurino teve decretada sua efemeridade, surgiram as caixas perfumadas que se abriram com apenas um toque, expondo o conteúdo que encheu meu espírito de paz, com meu coração palpitando devagar no aguardo do conforto que se aproximava. E assim foram desfilando na minha frente as mantas que estarão à minha espera ao pé da lareira, o aparelho de chá, um caderno em branco, lápis de ponta fina e cabeça de borracha para riscar o engano, anotações preciosas, e meu rádio de pilha ressoando na madrugada que virá.

 

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