terça-feira, 10 de março de 2026

A Trilha Invisivel

 


O andar é silencioso como se pisasse em ovos, como se quisesse levitar para não destruir a grama recém-bafejada pela maresia como se assim pudesse não algaraviar a passarada que quase não dorme por aqui, porque sempre tem algum trinado ecoando entre as sombras. Há sempre um ninho onde menos se espera, há sempre um refúgio para quem ficou sem o seu galho preferido e, de certa forma, chama os seus pares num grito pungente de ajuda. Parece sempre que é um silêncio barulhento este, da natureza.

Os caminhos têm igual personalidade, ora sendo cuidados, ora escondidos nos cômoros, nos arredores das vilas que se insinuam por entre as quadras mais longínquas e as trilhas dos pescadores que, para terem acesso ao mar, marcam com suas chinelas o caminho deles, quase invisível. E então tudo fica, de certo modo, escondido, aparecendo todos estes milagres apenas para quem tem a vista fina, o apuro da mente conjuminada com o detalhe que prolifera neste ermo.

O sol também segue amainado e um pouco escondido entre nuvens, parecendo não querer aparecer de todo. Quem sabe ele – e todas as outras características – tenha certo receio de antecipar a temporada do tudo ou nada, os dias em que todas as praias sentem na carne que sua alma foi vendida, que seu espírito vai ser por algum tempo modificado, que as conversas de todos os dias se modificarão tanto que as cidadelas, os municípios e os distritos, de uma hora para outra, se tornam adultos e assim têm que lidar com a maioridade que, de fato, nem quer ser conquistada.

Mas o rei da indignação é mesmo o vento, que anda encafifado com tudo e não para de soprar, sobejando para os cômoros que agora nem têm mais pouso certo porque, em alguns lugares, se movimentam por cima das calçadas, das ruas e dos jardins adjacentes à beira do mar. Ele é assim, contumaz em sua missão, e me parece que agora encanzinou em soprar sempre, dia e noite, deixando nossos ouvidos moucos para o restante, nossas janelas parecem não ter serventia porque o bate-bumbo é constante. E eu aqui faço de conta que não me importo porque, quem sabe, ele consiga atrasar a invasão que tira todo mundo do eixo, mesmo sem seu sopro.

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