terça-feira, 17 de março de 2026

Fio de Pérola

 


Depois do ontem assentei meu corpo no lugar de costume com o pensamento aéreo, como eu gosto de ser - mesmo que dedos apontem para mim como qualquer coisa ou coisa nenhuma. Não me importo com tantas palavras nulas ao meu redor porque já faz algum tempo que decidi que teria ouvidos moucos para muitos, para poucos e para muito poucos.  Relevar o insignificante facilita para encontrar algumas verdadeiras razões que favoreçam e provoquem o modo pensar.

São tantos os motivos que decidem a quem vais dirigir um pensamento para registro que, em meio a este caos interessante de todos os dias, vou recolhendo algumas pérolas que necessitam ser retiradas do colar uma vez que, visivelmente avariadas, a elas apenas resta parar em algum outro colar que não o meu.

E foi deste modo interessante que iniciei meu dia retirando do meu pescoço um colar de pérolas que sempre uso, deixando-os entre os dedos. Ali está guardada a melhor ocasião, a palavra da hora certa, o sentimento adequado e o lugar que me importo. Mas me importo de verdade. Reparei que havia um movimento sem brilho que a mim chegava e, foi sem nenhuma malicia que me dei conta que deixei entrar no meu acervo de coisas e loisas determinadas pérolas que não possuíam a qualidade das que eu colecionava por puro instinto.

Me deu a impressão que eu havia  me distraído ao olhar para o outro lado quando estas pérolas deformadas se enroscaram no fio tão sub-repticiamente como acontece quando nos perpassa uma mentira, um agouro cinzento, uma palavra malsã acompanhada de um sorriso aguado. Decidi correr até a beira do mar e deitei na sua espuma um punhado de pérolas intrusas.

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