terça-feira, 8 de setembro de 2026

Pernas Aladas - Fábulas

 


Abri os olhos, não para o dia ou a noite, mas para o que não está à vista, o que o mundo esconde, o que a vida esqueceu de mostrar, o que desapareceu sem nem existir, o que está do outro lado do muro, o que está por detrás de nuvens carregadas, o que o mar levou, o que o vento desfez, o que a chuva molhou, o que o gelo derreteu. Ou simplesmente o que me neguei a enxergar.

São tantas as coisas que nublam meus olhos que resolvi olhar para dentro, porque, aparentemente ali está a transparência ladrilhada com precisão matemática, todos os meus passos dados de muito antes e de agora. Facilmente sentamos no topo do coração com o manejo na ponta dos dedos, marcando  o que vai por dentro no caminho da carne e do sangue resolvendo com maestria os acontecimentos de fora.

Perdi a conta dos assuntos que as ondas do mar me trazem, todos os dias, se espalhando entre as espumas, brilhando intensamente, chamando a atenção para o corre-corre na busca do que se oferece. Pequenas intervenções, alguns segredos, frases prontas, sugestões para o dia, uma repreensão afoita e, finalmente, o nada. Tudo isso - e muito mais - os meus olhos de dentro vislumbram.

Busco a colheita com sofreguidão estendendo minhas mãos trêmulas para alcançar o sugerido; corro com pernas aladas atrás da onda repleta de conversas que voltam das areias, rindo de mim. Tantas vezes retorno com as mãos vazias, por não ter a certeza nem a audácia de recolher o que me oferecem. O coração? Cheio de assunto...

 

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