domingo, 22 de março de 2026

Aconteceu no Fim do Mundo - O Conto

 


O navio jogou-se ao mar com bravura partindo daquela encosta inóspita enfiando sua nobre focinheira na primeira onda gigante que por ali batia com força. A embarcação foi construída contra todos os prognósticos dos técnicos do mar que, com braços hercúleos, rasgaram o rochedo na construção da plataforma que fechou o casco do monstro marinho. Parecia, à primeira vista, que havia uma intenção oculta.

Enquanto isso, a bruma de sal, o nevoeiro da madrugada, a umidade colante no ambiente estranho, a marujada com ouvidos moucos e lábios colados simplesmente tiraram as amarras que o prendia ao abismo e o fizeram deslizar sem destino - sem âncora, sem marujo, sem comandante, sem velas, sem capitão, sem bússola. Apenas o casco brilhava na densa cerração deixando resplandecer o misterioso camarote, até então, sem sombra de vida.

A maré, neste momento, revolta e barrenta percebeu que havia muito mais que um gigante de ferro sem rumo e aparentemente sem alma. Acionou sua intuição marinha, baixou suas ondas abrindo as comportas do oceano para o labirinto cristalino do fundo do mar e um outro mundo ficou em alerta onde grandes e pequenos, ferozes e calmos, escondidos e exibidos, com escamas ou sem, estancam junto a maré. A nau navegante afundou serenamente seu ventre na massa oceânica que silenciava em torno do que parecia ser um segredo.

Sem a propulsão das grandes embarcações singrava a nômade do vento, vazia de movimento no convés, na proa e na popa sequer deixando um rastro espumoso para trás. Se ouvia apenas um marulhar das águas, dos viventes do sal e o farfalhar das plantas. O mar transformou sua surpresa em encantamento quando se defrontou com a parição de Vanisa sobre uma camada de limo.

 

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