O navio jogou-se ao mar com
bravura partindo daquela encosta inóspita enfiando sua nobre focinheira na
primeira onda gigante que por ali batia com força. A embarcação foi construída
contra todos os prognósticos dos técnicos do mar que, com braços hercúleos, rasgaram
o rochedo na construção da plataforma que fechou o casco do monstro marinho.
Parecia, à primeira vista, que havia uma intenção oculta.
Enquanto isso, a bruma de sal,
o nevoeiro da madrugada, a umidade colante no ambiente estranho, a marujada com
ouvidos moucos e lábios colados simplesmente tiraram as amarras que o prendia
ao abismo e o fizeram deslizar sem destino - sem âncora, sem marujo, sem
comandante, sem velas, sem capitão, sem bússola. Apenas o casco brilhava na
densa cerração deixando resplandecer o misterioso camarote, até então, sem sombra
de vida.
A maré, neste momento, revolta
e barrenta percebeu que havia muito mais que um gigante de ferro sem rumo e
aparentemente sem alma. Acionou sua intuição marinha, baixou suas ondas abrindo
as comportas do oceano para o labirinto cristalino do fundo do mar e um outro
mundo ficou em alerta onde grandes e pequenos, ferozes e calmos, escondidos e
exibidos, com escamas ou sem, estancam junto a maré. A nau navegante afundou
serenamente seu ventre na massa oceânica que silenciava em torno do que parecia
ser um segredo.
Sem a propulsão das grandes
embarcações singrava a nômade do vento, vazia de movimento no convés, na proa e
na popa sequer deixando um rastro espumoso para trás. Se ouvia apenas um
marulhar das águas, dos viventes do sal e o farfalhar das plantas. O mar
transformou sua surpresa em encantamento quando se defrontou com a parição de
Vanisa sobre uma camada de limo.

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