Vanisa desceu os degraus da
morada escolhida que separava em curta distância das primeiras ondas do mar
que, neste momento, lambia seus pés nus como se fosse um recado de encantamento
à sua figura surgida – para eles – do nada. Vanisa trazia um olhar opaco, a
mente vazia e a alma em transe da pouca vida que deixou para trás. Jovem em
anos, com um coração de passagem.
Sacudiu a cabeça em negação
aos pensamentos que se acotovelavam dentro de si buscando o horizonte, onde a
vida dela há de acontecer, onde o limite que ora se impõe a sua existência será
fugidio, enfogueirado nos tempos de calor, ondulados com a maré revolta, em
perfeita costura entre o céu e o mar em eterno movimento, evidenciando claramente
que a escolha da Nova Vida a natureza permitiu.
Foi sem surpresa aparente que
percebeu o entorno favorecendo a comunhão única com o tempo que por aqui possui
outro significado, com o clima que não permite que ninguém se aborreça por seu
caráter indômito e surpreendente e a abóboda celeste reunindo todos os cânticos
da massa viva deste porto escolhido.
Animada com o frescor da
madrugada que a recebia resolveu conferir a composição física do lugar que
surgiu sendo praticamente induzida a se encantar e desejar tornar-se parte do
que se apresentava. Poucos móveis, rústicos como o seu atual figurino, mesas,
cadeiras confortáveis e rangendo a favor do tempo longo de fabricação o que
arrancou um sorriso benevolente e grato de Vanisa.
Na cozinha integrada tal qual uma
antiga casa de marinheiro, tudo o que se faz necessário é uma chaleira pronta
para chiar na madrugada, ferramentas que destrinchem o alimento do dia, redes
de pesca alinhadas prontas para se enredar em hábeis mãos, talvez, um dia, nas
suas próprias. O cenário almejado, lúdico, limpo e iluminado estava completo
mesmo com o mais difícil por vir.

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