quinta-feira, 26 de março de 2026

Vanisa, Café e a Nova Vida

 


Vanisa desceu os degraus da morada escolhida que separava em curta distância das primeiras ondas do mar que, neste momento, lambia seus pés nus como se fosse um recado de encantamento à sua figura surgida – para eles – do nada. Vanisa trazia um olhar opaco, a mente vazia e a alma em transe da pouca vida que deixou para trás. Jovem em anos, com um coração de passagem.

Sacudiu a cabeça em negação aos pensamentos que se acotovelavam dentro de si buscando o horizonte, onde a vida dela há de acontecer, onde o limite que ora se impõe a sua existência será fugidio, enfogueirado nos tempos de calor, ondulados com a maré revolta, em perfeita costura entre o céu e o mar em eterno movimento, evidenciando claramente que a escolha da Nova Vida a natureza permitiu.

Foi sem surpresa aparente que percebeu o entorno favorecendo a comunhão única com o tempo que por aqui possui outro significado, com o clima que não permite que ninguém se aborreça por seu caráter indômito e surpreendente e a abóboda celeste reunindo todos os cânticos da massa viva deste porto escolhido.

Animada com o frescor da madrugada que a recebia resolveu conferir a composição física do lugar que surgiu sendo praticamente induzida a se encantar e desejar tornar-se parte do que se apresentava. Poucos móveis, rústicos como o seu atual figurino, mesas, cadeiras confortáveis e rangendo a favor do tempo longo de fabricação o que arrancou um sorriso benevolente e grato de Vanisa.

Na cozinha integrada tal qual uma antiga casa de marinheiro, tudo o que se faz necessário é uma chaleira pronta para chiar na madrugada, ferramentas que destrinchem o alimento do dia, redes de pesca alinhadas prontas para se enredar em hábeis mãos, talvez, um dia, nas suas próprias. O cenário almejado, lúdico, limpo e iluminado estava completo mesmo com o mais difícil por vir.

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