Cheguei à cabeceira da ponte carregando no meu
coração muitos estilhaços que estavam sangrando mansamente. Ao me deparar tão
profundamente comigo mesma tratei de vestir esta tristeza para ter autonomia e
desembaraçar-me dela, na medida em que a vida vai cauterizar as bordas das
feridas abertas.
Tenho que admitir que eu deixei que elas
surgissem no meu peito por não haver percebido, na simplicidade da minha vida,
o pendor para deixar minha alma crédula, desidratada. E foi com este jeito
capenga que cheguei naquela ponte sem conseguir firmar meu olhar embaçado de
lágrimas que se negavam a escorrer pelo rosto. Derramavam-se a esmo por entre
rugas da face e estas, buscavam insistentemente o caminho para acessar minha
consciência repleta de fragmentos sem propósito.
Depois de divagar um pouco firmei a vista e
por mais que eu quisesse encetar meu passo a ponte ora se transformava em uma
pinguela, um pequeno passadiço, um acesso sobre cordas, as vezes uma balsa.
Esta última visão me chamou a atenção: parecia ser a passagem correta.
Vou embarcar com os troncos recém trançados
com corda antiga, confortável para me transportar ao lugar do nunca, um momento
de calmaria, deixar ir em pequenas ondas ou atracar em uma encosta inóspita.
Mil variações surgiram desta pequena grande jangada de um rio qualquer. Foi
assim que deixei no lodo de entrada do pequeno porto a tristeza que me foi
enviada quando em desaviso do perigo.

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