domingo, 29 de março de 2026

O Marlim-Azul e o Passaporte de Vanisa

 


O dia clareou com certa pressa assustando Vanisa que tinha ainda no coração e no corpo, determinado frenesi após o desembarque em pleno oceano gelado por natureza e desejado como sendo a nova rota, tantas vezes imaginada e que agora se apresentava com simplicidade única. Vanisa ajeitou os cabelos brancos e ondulados que caíam pelos ombros enquanto a bruma diáfana da noite anterior ainda a envolvia, o que a deixava, felizmente, livre de qualquer elemento que não fizesse parte da sua imaginação que, aos poucos, descongelava seus sentimentos.

Sentiu que na vila a rotina se movimentava e o cheiro de café se espalhava entre as casas vizinhas parecendo fios de fumaça nas caprichosas chaminés. Ansiosa, Vanisa correu para a rua tropeçando pesadamente numa trouxa que estava ao pé da porta do lado de fora. Estranhou o artefato uma vez que, assim como o caminho que a levou até agora faz parte da profundeza abissal do ambiente marinho não lembrava de haver trazido consigo nenhum pertence.

Esqueceu o cheirinho do café coado no bule antigo, sentou-se em um dos primeiros degraus da casa puxando para si a pequena trouxa que exalava um odor marinho, denso e profundo que a deixou levemente inebriada, porém, voltou a si ao perceber que talvez houvesse ali um recado importante.

Em meio a este acordar novidadeiro e brumoso com o ziguezague de aromas, Vanisa lembrou claramente da última cena antes de pousar seus pés no limbo que, estendeu-se para recebê-la: ao seu lado, postara-se o Marlim-Azul com a elegância de um rei da pesca que lhe alcançou o embrulho que agora repousava no umbral.

Neste momento a curiosidade havia se aguçado e rapidamente desfez o nó que fechava a trouxa perfumada e leve. Ao abrir suas dobras Vanisa não encontrou nenhum objeto que lhe fosse familiar, um caderno com folhas em branco, um lápis com cabeça de borracha, nada com que se familiarizasse. Um pouco decepcionada, estendeu totalmente o pano no chão, o qual restava vazio, porém, em seu lado avesso cintilavam milhares de estrelas que se movimentavam em um bailado lúdico na medida que Vanisa o recolheu, o colocou nos ombros e foi ter com os aldeões. Havia chegado o seu passaporte.

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