segunda-feira, 30 de março de 2026

O Fim do Verão

 


Empurrei levemente a porta da casa localizada aqui na minha esquina que — como muitas no entorno — está fechada e, pelo menos na minha visão, o que menos importa é qual a feição arquitetônica que foi construída. Para mim, todas elas possuem o sombrio estigma de que, neste momento do ano, se encontram desalmadas.

Seus habitantes fecharam a residência hermeticamente — muitas vezes às pressas — e arrastaram em meio à bagagem a vivacidade do lugar, que possui a personalidade do verão, aquele que recebe todo dia fragorosos abraços, alarido de convidados, choro e riso de criança, adolescentes nervosos, adultos estonteados. Este circo composto de sol quente, mar gelado e invasão de ambulantes dança lentamente no olhar dos idosos que, alheios propositalmente a tudo, observam o vai e vem na cadeira de balanço localizada estrategicamente no alpendre.

Lembro bem do exército de pessoas que todo dia desembarcava no portão de entrada no início do pandemônio da temporada. Ali era descarregado todo tipo de traquitana remodeladora, parecendo que aqui, neste fim do mundo, o correto era colocar tudo abaixo e refazer. Não era. A ação intempestiva de última hora vinha acertar as contas com o descaso de meses.

Me aproximei, mais curiosa do que o normal e necessário, devo dizer, sendo envolvida imediatamente pelo ar rarefeito que envolvia o prédio, dando a impressão de que talvez esta linda residência sentisse, em sua alma de tijolos e cimento, a ausência dos seus donos.

As paredes externas se encontravam úmidas e já com listras tênues de perda da vivacidade da sua cor. O pequeno portão tinha seu cadeado tão enferrujado que, em um toque apenas, se esfacelou aos meus pés. Recolhi-o, colocando-o no cantinho do jardim para que ficasse em paz, sem ser reconhecido por ter sido fraco frente à maresia inclemente da beira do mar.

Apenas mais alguns passos para perceber que nas venezianas, em um lugar e outro, havia pontos corroídos, como se alguma espécie mais audaciosa tivesse preferido passar o inverno dentro destas paredes abandonadas. E, para mim, se o fizeram, acertaram o alvo. Um lugar abandonado que foi batizado com o sangue da alegria merece ter visitantes com coragem.

 

 

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