Empurrei levemente a porta da
casa localizada aqui na minha esquina que — como muitas no entorno — está
fechada e, pelo menos na minha visão, o que menos importa é qual a feição
arquitetônica que foi construída. Para mim, todas elas possuem o sombrio estigma
de que, neste momento do ano, se encontram desalmadas.
Seus habitantes fecharam a
residência hermeticamente — muitas vezes às pressas — e arrastaram em meio à
bagagem a vivacidade do lugar, que possui a personalidade do verão, aquele que
recebe todo dia fragorosos abraços, alarido de convidados, choro e riso de
criança, adolescentes nervosos, adultos estonteados. Este circo composto de sol
quente, mar gelado e invasão de ambulantes dança lentamente no olhar dos idosos
que, alheios propositalmente a tudo, observam o vai e vem na cadeira de balanço
localizada estrategicamente no alpendre.
Lembro bem do exército de
pessoas que todo dia desembarcava no portão de entrada no início do pandemônio
da temporada. Ali era descarregado todo tipo de traquitana remodeladora,
parecendo que aqui, neste fim do mundo, o correto era colocar tudo abaixo e refazer.
Não era. A ação intempestiva de última hora vinha acertar as contas com o
descaso de meses.
Me aproximei, mais curiosa do
que o normal e necessário, devo dizer, sendo envolvida imediatamente pelo ar
rarefeito que envolvia o prédio, dando a impressão de que talvez esta linda
residência sentisse, em sua alma de tijolos e cimento, a ausência dos seus
donos.
As paredes externas se
encontravam úmidas e já com listras tênues de perda da vivacidade da sua cor. O
pequeno portão tinha seu cadeado tão enferrujado que, em um toque apenas, se
esfacelou aos meus pés. Recolhi-o, colocando-o no cantinho do jardim para que
ficasse em paz, sem ser reconhecido por ter sido fraco frente à maresia
inclemente da beira do mar.
Apenas mais alguns passos para
perceber que nas venezianas, em um lugar e outro, havia pontos corroídos, como
se alguma espécie mais audaciosa tivesse preferido passar o inverno dentro
destas paredes abandonadas. E, para mim, se o fizeram, acertaram o alvo. Um
lugar abandonado que foi batizado com o sangue da alegria merece ter visitantes
com coragem.

Nenhum comentário:
Postar um comentário