Ela veio devagar, como quem não quer nada, e em completo
silêncio invadiu a minha seara. Pensei que não tinha mais jeito mesmo e a
deixei entrar.
A cozinha se revelou o primeiro lugar a ser arrebentado
porque, de certa forma, eu gostaria muito de vê-la vazia. Seus canos
engordurados, como veias doentes, deviam se mostrar antes de desaparecerem nas
hábeis mãos do consertador de paredes.
Mas foi ao ver o espaço sumir e se transformar em entulho
que percebi que, junto àqueles canos, se foi algo de mim. Uma percepção de que
eu mesma estava impregnada de um sebo rançoso, que neste momento se esvaiu nas
novas valas abertas e limpas.
De certa maneira, continuei viajando num sonho de ausência.
Do que havia por ali, nada fazia mais sentido, e deixei a tralha tomar seu
rumo. Acho até que as coisas se foram sozinhas, porque de mim não aguentavam
mais nada.
Quebrei as paredes e deixei a luz – antes rara – entrar com
força. Transformei o meu ninho antigo em um lugar de refeições que, por ora,
está vazio, aguardando o meu novo gosto de arrumar. Ele também se foi, e agora
posso andar por aí pensando e procurando o que eu gostaria de ter, qual a minha
cor preferida. Está sendo divertido não ter um gosto definido para compor uma
casa.
Segui em frente derrubando tudo, me desfazendo e doando.
Também meu espírito tomou outro rumo. Sem culpa de esvaziar minha vida prática,
sem saber como reerguê-la; sem medo de liberar o que já me serviu. Agora,
apenas a liberdade de ser eu mesma. Uma que ficou nem sei onde.

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