terça-feira, 31 de março de 2026

Onde o Gosto se Perdeu

 

Ela veio devagar, como quem não quer nada, e em completo silêncio invadiu a minha seara. Pensei que não tinha mais jeito mesmo e a deixei entrar.

A cozinha se revelou o primeiro lugar a ser arrebentado porque, de certa forma, eu gostaria muito de vê-la vazia. Seus canos engordurados, como veias doentes, deviam se mostrar antes de desaparecerem nas hábeis mãos do consertador de paredes.

Mas foi ao ver o espaço sumir e se transformar em entulho que percebi que, junto àqueles canos, se foi algo de mim. Uma percepção de que eu mesma estava impregnada de um sebo rançoso, que neste momento se esvaiu nas novas valas abertas e limpas.

De certa maneira, continuei viajando num sonho de ausência. Do que havia por ali, nada fazia mais sentido, e deixei a tralha tomar seu rumo. Acho até que as coisas se foram sozinhas, porque de mim não aguentavam mais nada.

Quebrei as paredes e deixei a luz – antes rara – entrar com força. Transformei o meu ninho antigo em um lugar de refeições que, por ora, está vazio, aguardando o meu novo gosto de arrumar. Ele também se foi, e agora posso andar por aí pensando e procurando o que eu gostaria de ter, qual a minha cor preferida. Está sendo divertido não ter um gosto definido para compor uma casa.

Segui em frente derrubando tudo, me desfazendo e doando. Também meu espírito tomou outro rumo. Sem culpa de esvaziar minha vida prática, sem saber como reerguê-la; sem medo de liberar o que já me serviu. Agora, apenas a liberdade de ser eu mesma. Uma que ficou nem sei onde.

 

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