A noite havia caído nestes
dias tão delicadamente sobre o vilarejo, que os aromas, as conversas e os
ruídos característicos de início do descanso se mostravam praticamente
inaudíveis deixando a aragem com ar soturno e sonolento. Apesar desta percepção
no alto da encosta, a faina do ruído que cerca a rolagem dos cascos pesqueiros
na esteira de troncos acima, segue no ritmo correto.
As redes sussurram e se
engasgam no arrasto das ásperas cordas e tudo acontece com menos assunto entre
os pescadores, que preferiram, nesta noite, cachimbar suas baganas de palheiro
a ter que inventar mentiras de pescador. O ambiente todo se mostrava cauteloso
parecendo suspeitar de alguma fuga ou aventura prestes a acontecer. A marujada,
instintivamente, abandonou o boteco cessando o tilintar dos copos: a fornalha
de barro se apagou, a chaleira parou de chiar, e a aguardente foi recolhida
apressadamente.
A noite, muito mais iluminada
do que o normal encontrou Vanisa desperta e agitada, vagando no entorno da
casa, subindo e descendo os degraus do alpendre e conferindo se os móveis
continuavam no mesmo lugar. Surpresa, percebeu que o povoado havia se retirado
mais cedo, silenciado os ruídos habituais
deixando que o clarão da noite
emoldurasse o caminho até o oceano.
Impulsionada pela insônia,
desceu rapidamente para encontrar o mar, calmo, reluzindo a lua no alto do céu,
e, em um ato impensado despiu-se adentrando seus pés na espuma delicada que
revestia as primeiras ondas. Afoita, iniciou o nadar, quando se deparou com um
lindo vestido translúcido que flutuou e se colocou como vestimenta, adicionando
a tiara bordada que a magnetizou: ressuscitando lembranças de sua alma.
A correnteza, ávida por
companhia, arremeteu Vanisa em um mergulho fascinante, levando a Princesa do
planeta abissal à fronteira do passado, que até então se mantinha em
respeitável segredo. A dança na água gelada reencontra a mesma massa oceânica
que a reverenciou tempos atrás. Encantada ela inicia o retorno ao arrabalde através
do extenso tapete de Limo bordejado pelos corais Leques-do-Mar. A escolha dela
surgiu da fluidez sentida ao reencontrar rastros do seu espirito que a levaram
– desta vez – à terra firme.

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