domingo, 10 de maio de 2026

Vanisa na Fronteira do Passado

 


A noite havia caído nestes dias tão delicadamente sobre o vilarejo, que os aromas, as conversas e os ruídos característicos de início do descanso se mostravam praticamente inaudíveis deixando a aragem com ar soturno e sonolento. Apesar desta percepção no alto da encosta, a faina do ruído que cerca a rolagem dos cascos pesqueiros na esteira de troncos acima, segue no ritmo correto.

As redes sussurram e se engasgam no arrasto das ásperas cordas e tudo acontece com menos assunto entre os pescadores, que preferiram, nesta noite, cachimbar suas baganas de palheiro a ter que inventar mentiras de pescador. O ambiente todo se mostrava cauteloso parecendo suspeitar de alguma fuga ou aventura prestes a acontecer. A marujada, instintivamente, abandonou o boteco cessando o tilintar dos copos: a fornalha de barro se apagou, a chaleira parou de chiar, e a aguardente foi recolhida apressadamente.

A noite, muito mais iluminada do que o normal encontrou Vanisa desperta e agitada, vagando no entorno da casa, subindo e descendo os degraus do alpendre e conferindo se os móveis continuavam no mesmo lugar. Surpresa, percebeu que o povoado havia se retirado mais cedo, silenciado os ruídos habituais   deixando que o clarão da noite emoldurasse o caminho até o oceano.

Impulsionada pela insônia, desceu rapidamente para encontrar o mar, calmo, reluzindo a lua no alto do céu, e, em um ato impensado despiu-se adentrando seus pés na espuma delicada que revestia as primeiras ondas. Afoita, iniciou o nadar, quando se deparou com um lindo vestido translúcido que flutuou e se colocou como vestimenta, adicionando a tiara bordada que a magnetizou: ressuscitando lembranças de sua alma.

A correnteza, ávida por companhia, arremeteu Vanisa em um mergulho fascinante, levando a Princesa do planeta abissal à fronteira do passado, que até então se mantinha em respeitável segredo. A dança na água gelada reencontra a mesma massa oceânica que a reverenciou tempos atrás. Encantada ela inicia o retorno ao arrabalde através do extenso tapete de Limo bordejado pelos corais Leques-do-Mar. A escolha dela surgiu da fluidez sentida ao reencontrar rastros do seu espirito que a levaram – desta vez – à terra firme.

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