sábado, 28 de fevereiro de 2026

Entre e o Limbo e o Mar

 


Nestes dias andei com o pensamento nas nuvens, uma vez que daqui em diante tenho resoluções importantes a considerar. Fui buscar inspiração por entre as nuvens que correm ligeiras, parecendo fugir de mim; em outro tempo, elas se adensam e me dão a impressão de que irão se derramar sobre os meus ombros, e o que vier não poderei suportar. Entre um e outro devaneio de ajuda e perseguição, esqueci-me de colocar os meus pés no chão e, devo confessar, andar com a cabeça nas nuvens tem um valor intrínseco para mim.

Restaurada a confiança no meu passo de andarilha pela terra, pelo ar e pela água, assentei meus pés nus na areia da praia que, ao me aproximar, se avolumou levemente no passadiço. Isso me proporcionou um conforto divertido de um chão levemente gelado, causando em mim uma sensação de despertar; afinal, estou retornando ao caminho natural de todos os dias.

Muito antes de minha caminhada se iniciar, ergui meus olhos ávidos por encontrar o oceano imenso à minha frente, muito curiosa por verificar qual o estado dele neste momento. Eu havia acabado de retornar do limbo do céu e recolhido com parcimônia o que estavam me sussurrando entre um estrondo de tempestade, uma brisa ligeira e um bafo quente de alerta.

Sentei-me vagarosamente frente a este meu norte diário, mesmo vindo de leste, e, assim como no céu cheio de nuvens faladeiras, percebi o mar enxovalhado de recados que, somados, se derramavam aos meus pés com vigor, forma, cor e ímpeto diferentes entre uma onda e outra. Minha visão se alongou até depois da arrebentação — onde a onda cresce e se derrama com uma franja de espuma alva para encontrar as areias sedentas de seu desaguar. Elas eram a comissão de frente dos recados que o mar estava depositando aos meus pés. Arrecadei o segredo do dia rumando para casa com a intenção de reabrir aquele velho caderno de pequenas anotações que nortearão os passos que ainda não dei.

3 comentários:

Anônimo disse...

Que lindo! A cada Crônica que escreves, um novo Mundo se abre, aparece e cresce! Parabéns!!!!!!

Anônimo disse...

Bela crônica.

Anônimo disse...

Que bom ter o mar por conselheiro!

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