terça-feira, 12 de maio de 2026

Trapos sem Botões

 


Acordei nesta manhã sentindo no ar o cheiro de “Laquê” dando a impressão de um breve pesadelo e que este retornava de uma viagem ao passado, aportando nesta madrugada exatamente no momento em que devo encetar a caminhada deste dia. Verifiquei que o teclado havia me chamado à chincha e o verbo a conjugar: corri para o tanto de assunto em cima da mesa de trabalho que promete mistério, saudades e revelações.

Lembrei de todos os fios de cabelo enredados - um por um - em uma maçaroca acimentada para permanecer por dias através da alquimia reinante. Ainda de olhos arregalados surgiu o velho Salão de Beleza da minha rua, dentro de uma bruma, como se fosse um caleidoscópio fervilhando na busca de outra face e misturando a língua ferina aos odores cáusticos

Mais assustada do que divertida corri e abri as portas do meu armário de par em par. Senti a necessidade de conferir se o pesadelo havia influenciado o meu vestir de hoje, me surpreendendo com a quantidade de roupas muito pequena em comparação a outros tempos. Satisfeita, conferi que a paleta de cores suave se mantinha firme na arrumação singela dos cabides, que as peças pareciam ter volatilidade no caimento e textura, me aquecendo só de olhar.

Investiguei quais mudanças houve na maneira de cobrir meu corpo que mudou e que foi me deixando recados importantes. Assim foi com a galeria de sapatos, que um belo dia, ao me defrontar na escolha, não os encontrei: tudo o que ali havia se evadiu, inclusive meu salto agulha deixando em seu lugar, lindas sapatilhas bordadas e calçados macios como algodão.

Para fazer companhia às mudanças no meu vestuário enverguei aquele casaco trançado por artesãs em lã de fiação caseira com linda amarração de tecido leve e fluido, deixando minha cintura amarrada na cadência do dia cheio de surpresas. Abri a gaveta no sótão que recebe a companhia de todos os botões ceifados da minha roupa, os cintos de couro que estrangularam minha cintura, soutiens de arame, cílios postiços, rolo de cabelos e brincos sem par que hoje dormem o sono do descarte.

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