Nesta manhã, senti-me
extraviada da vida. Sem muito pensar deixei a porta destravada, e meu coração
também que, ao sentir-se livre encontrou a minha verve literária se soltando em
letras, trancando o teclado, borrando com tinta fresca minhas páginas numeradas
e, a seguir, quebrando o grafite do meu estojo. Acredito na intenção de que nenhuma
palavra deveria chegar até mim.
Não fiz caso do ocorrido e
tratei de dar por encerrado meu arroubo descritivo do dia e o enfurnei,
impensadamente, em um grande envelope. Corri até a beira do mar com a mão para
o alto, suplicando ao vento que o enviasse ao seu destino. A missiva que eu rascunhei
misturava letras desconexas que, até para mim, tornaram-se de difícil
entendimento. Quem sabe a minha intenção fosse justamente esta: oferecer a
impossibilidade de resposta.
Ainda em dúvida e com o vento
à minha frente decidi entregar ao acaso esta que deveria ser apenas
mais uma carta, das tantas no mundo que adejam pelos céus e que não chegam
nunca a lugar algum. Ando pensando que eu, de último momento, arrependi-me do
envio e fui – em segredo – brincar com a atmosfera de espalhar papeis. Desta
maneira que não faz sentido, eu posso me esquivar de ter enviado um recado mal
escrito, utilizando de palavras ferinas que provavelmente saltaram de algum dicionário
mal-intencionado, que surgiu da treva verbal que anda rondando meus sonhos. E
foi assim que redigi minha primeira carta sem destinatário e ponto final.

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