quarta-feira, 13 de maio de 2026

Ponto final Sem Destino

 


Nesta manhã, senti-me extraviada da vida. Sem muito pensar deixei a porta destravada, e meu coração também que, ao sentir-se livre encontrou a minha verve literária se soltando em letras, trancando o teclado, borrando com tinta fresca minhas páginas numeradas e, a seguir, quebrando o grafite do meu estojo. Acredito na intenção de que nenhuma palavra deveria chegar até mim.

Não fiz caso do ocorrido e tratei de dar por encerrado meu arroubo descritivo do dia e o enfurnei, impensadamente, em um grande envelope. Corri até a beira do mar com a mão para o alto, suplicando ao vento que o enviasse ao seu destino. A missiva que eu rascunhei misturava letras desconexas que, até para mim, tornaram-se de difícil entendimento. Quem sabe a minha intenção fosse justamente esta: oferecer a impossibilidade de resposta.  

Ainda em dúvida e com o vento à minha frente decidi entregar ao acaso esta que deveria ser apenas mais uma carta, das tantas no mundo que adejam pelos céus e que não chegam nunca a lugar algum. Ando pensando que eu, de último momento, arrependi-me do envio e fui – em segredo – brincar com a atmosfera de espalhar papeis. Desta maneira que não faz sentido, eu posso me esquivar de ter enviado um recado mal escrito, utilizando de palavras ferinas que provavelmente saltaram de algum dicionário mal-intencionado, que surgiu da treva verbal que anda rondando meus sonhos. E foi assim que redigi minha primeira carta sem destinatário e ponto final.

Nenhum comentário:

Ponto final Sem Destino

  Nesta manhã, senti-me extraviada da vida. Sem muito pensar deixei a porta destravada, e meu coração também que, ao sentir-se livre encontr...