Após o vendaval na costa,
comecei a perceber que algumas coisas haviam mudado de lugar, como se houvesse
uma troca intencional que às vezes acontece no meu sonambulismo de intenção
velada. Vez ou outra faço de conta que estou arrumando o que existe à vista e
me deparo com a inexistência de outras tantas que não residem mais na terra
firme da vida, mas no imaginário retido a sete chaves no armário obstinado do
passado.
Sem ainda ter me avistado
diretamente com a proposição inusitada que a independência do tempo trouxe para
mim, iniciei com esmero a trajetória de retorno no dial que ainda possui
sabedoria e volatilidade para deslizar nos degraus de outrora.
Ensaiei uma singela
bisbilhotice porque, bem no fundo, eu sabia em qual estrutura havia pousado
aquele álbum de opaca beleza montado há muito tempo. E foi assim que a luz
deste dia iluminou o encanto do acervo que se ajoelhava aos meus pés pedindo a
misericórdia de o revisitar.
Neste momento perdi a
resistência do imperativo hoje, que arrasta sem dó o apagão de ontem.
Encorajada pelo rescaldo do vento, acionei a intuição, colocando o álbum que
retratava o pedacinho da existência de momentos de tempos atrás, nos joelhos.
Foi assim que, sem aviso
prévio, me vi a folhear a carreira preciosa de fatos que se eternizaram pelo
simbolismo infantil de secagem de flores, bilhetes com linhas mal traçadas,
laços de fita roídos pelas traças, folhas que deixaram seu caule cheio de vida
para compor um ramalhete, espinhos retirados da haste de origem,
propositalmente. Assim estavam armazenados pedaços de amor além da alma,
protegidos da luz e florescendo na escuridão cheirosa do para sempre.

Nenhum comentário:
Postar um comentário