sexta-feira, 1 de maio de 2026

O Arrepio de Misericórdia

 


Após o vendaval na costa, comecei a perceber que algumas coisas haviam mudado de lugar, como se houvesse uma troca intencional que às vezes acontece no meu sonambulismo de intenção velada. Vez ou outra faço de conta que estou arrumando o que existe à vista e me deparo com a inexistência de outras tantas que não residem mais na terra firme da vida, mas no imaginário retido a sete chaves no armário obstinado do passado.

Sem ainda ter me avistado diretamente com a proposição inusitada que a independência do tempo trouxe para mim, iniciei com esmero a trajetória de retorno no dial que ainda possui sabedoria e volatilidade para deslizar nos degraus de outrora.

Ensaiei uma singela bisbilhotice porque, bem no fundo, eu sabia em qual estrutura havia pousado aquele álbum de opaca beleza montado há muito tempo. E foi assim que a luz deste dia iluminou o encanto do acervo que se ajoelhava aos meus pés pedindo a misericórdia de o revisitar.

Neste momento perdi a resistência do imperativo hoje, que arrasta sem dó o apagão de ontem. Encorajada pelo rescaldo do vento, acionei a intuição, colocando o álbum que retratava o pedacinho da existência de momentos de tempos atrás, nos joelhos.

Foi assim que, sem aviso prévio, me vi a folhear a carreira preciosa de fatos que se eternizaram pelo simbolismo infantil de secagem de flores, bilhetes com linhas mal traçadas, laços de fita roídos pelas traças, folhas que deixaram seu caule cheio de vida para compor um ramalhete, espinhos retirados da haste de origem, propositalmente. Assim estavam armazenados pedaços de amor além da alma, protegidos da luz e florescendo na escuridão cheirosa do para sempre.

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