Tudo estava no lugar devido: o
mar logo ali mais gelado do que deveria, sequer me aguardava, o dia, emburrado,
da mesma forma. Olhei ao redor e cada arrabalde do fim do mundo onde me
acomodei, não se mantinha a postos, dando a impressão de uma atmosfera pendurada
e aflita, com suspeita de desarrumação. Os olhares da natureza se voltavam a um
vácuo comum, coisa rara de se ver na costa selvagem, que joga suas ondas aonde
bem entende, a brisa se transforma em ventania ao seu gosto e a areia fina da
beirada se arrasta para cima ou para baixo, enterrando o que passa pela frente.
Meu olhar, igual à vizinhança,
manteve-se alheio, acrescentando ao fato inusitado a dúvida se haverá outro
dia, de que matiz se cobrirá, que cauda ventosa será soprada, que pássaros
deixarão de trinar sucumbindo a um piar volátil neste dia sem voz, sem palavra,
sem verbo, sem dizeres.
Senti um calafrio quando
percebi que o pensamento sugeridor de assunto resolveu estancar a tarefa diária
de assoprar tantos quantos termos me aprouvessem. Surpresa e curiosa resolvi
destinar boa parte desta manhã cinza à busca de toda grafia ancestral e confirmar
que se evadiram somente aqueles caracteres que adoram brincar de esconde com a
minha intenção descritiva, esburacando o léxico me deixando em voejo solo -
qual mosca varejeira em cozinha limpa.
Sentei-me frente ao mar
deixando que minha alma buscasse as expressões fujonas de mim, mesmo
pressentindo que, por algum motivo oculto, elas tenham ido embora para sempre,
sem deixar nenhum herdeiro de significado. Implorei ao vento que buscasse no
oceano, algum navio, barco de pesca, veleiro, atracadouro, símbolos de outrora
e que estes, aceitem completar meu alfabeto que segue escasso, sem significado,
sem busca, sem alcance, sem alma e sem futuro.

Nenhum comentário:
Postar um comentário