quarta-feira, 21 de janeiro de 2026

Virou Pó

 


Eu tenho muitos segredos e os armazeno em uma caixa antiga e forte, com uma aldrava de impor respeito, inclusive na aparência. Ela está sempre na mira porque o conteúdo é importante para mim e por este motivo e outros mais não deve se romper sem um propósito, sem uma causa, porém, hoje se faz um dia diferente.

Não sei identificar por qual motivo, mas, entrando um pouco mais na densa desordem interna do meu coração tenho a impressão que algo profundo se mexeu, talvez tenha se escondido atrás de outro ponto seleto, escorregado para debaixo dos outros ou, virado pó. Na verdade, comecei a perceber que exalava do pequeno cofre um pó brilhante e muito diáfano contra luz. Imaginei que haveria por ali algo importante a ser conferido.

Continuei no meu cuidadoso lugar como se estivesse entrando pé ante pé em algum assunto importante que eu mesma deixei estar, talvez porque somente em pensar nele meu corpo se encrespa, se contrai, entrando em uma espécie de transe comandado pela minha mente que, neste acaso, tomou a frente em uma ação descoordenada da minha razão.

Comecei a ficar mais cabisbaixa e pensativa voltando, de certo modo, um pouco atrás no tempo recente, bem pouco aliás, porque minha intenção seria não retornar. Me debrucei mansamente sobre aquela névoa translúcida e me dei conta que, não ter forma significa que andou por mim durante muito tempo minando a minha alma com cínica discrição, mesmo que eu a tenha bem velada em cadeado. E foi assim que sem mais delongas percebi que o mal não mais atingirá. Virou pó.

 

 

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