Eu tenho muitos segredos e os
armazeno em uma caixa antiga e forte, com uma aldrava de impor respeito,
inclusive na aparência. Ela está sempre na mira porque o conteúdo é importante
para mim e por este motivo e outros mais não deve se romper sem um propósito,
sem uma causa, porém, hoje se faz um dia diferente.
Não sei identificar por qual motivo,
mas, entrando um pouco mais na densa desordem interna do meu coração tenho a
impressão que algo profundo se mexeu, talvez tenha se escondido atrás de outro
ponto seleto, escorregado para debaixo dos outros ou, virado pó. Na verdade,
comecei a perceber que exalava do pequeno cofre um pó brilhante e muito diáfano
contra luz. Imaginei que haveria por ali algo importante a ser conferido.
Continuei no meu cuidadoso
lugar como se estivesse entrando pé ante pé em algum assunto importante que eu
mesma deixei estar, talvez porque somente em pensar nele meu corpo se encrespa,
se contrai, entrando em uma espécie de transe comandado pela minha mente que,
neste acaso, tomou a frente em uma ação descoordenada da minha razão.
Comecei a ficar mais
cabisbaixa e pensativa voltando, de certo modo, um pouco atrás no tempo
recente, bem pouco aliás, porque minha intenção seria não retornar. Me debrucei
mansamente sobre aquela névoa translúcida e me dei conta que, não ter forma
significa que andou por mim durante muito tempo minando a minha alma com cínica
discrição, mesmo que eu a tenha bem velada em cadeado. E foi assim que sem mais
delongas percebi que o mal não mais atingirá. Virou pó.

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