terça-feira, 20 de janeiro de 2026

Carona Divina

 


Senti que algo me puxava neste novo caminho que acimentei com pedrinhas de brilhante que recolhi da maresia, que andou por cima de tudo e mais um pouco, lavrando a terra seca, desacomodando as pedras da estrada, arrevesando para longe todo o galho que por ventura resolvesse atravessar por onde não devia.

A maré veio rebolando suas ondas rindo baixinho. Como eu havia decidido mudar o coreto em que eu tocava há muito tempo, aproveitei a carona imprevista me deitando em seu leito arrevesado de água salgada e ardida, marolando por entre a espuma, seguindo em frente. Deste modo, pensava eu, se por ventura eu me achegasse ao seu destempero radiante eu poderia acabar com o enredo barulhento que jazia em minhas costas me agrilhoando.

Eu tinha certeza de que o fim estava próximo, que ontem mesmo eu havia desfeito o teatro apagando o cenário com todos os instrumentos aos quais eu trabalhei e de lá fui jogando para o tempo a presença, o sorriso, o olhar atento, a fala oportuna, a disciplina, a cooperação pertinente, meus pés, minhas mãos, meu bem querer.

Quando finalmente minha alma deixou a ocasião percebi que havia por ali, escondidos, pedaços de mim em alguns recantos da rua em curso. Me apressei e subi ao estrado novamente recolhendo o que de mim restou e foi despedaçado. Não tive pressa alguma porque o mar havia terminado ali seu destino e se preparava para voltar. Abracei a mim mesma, subi na crista da onda retornando nesta onda Divina. Que carona!

 

Nenhum comentário:

Alegoria

  Encontrei aquele rolo no meio dos meus guardados, aqueles que vieram de longe aportar por aqui para todo o sempre exatamente como determin...