Senti que algo me puxava neste
novo caminho que acimentei com pedrinhas de brilhante que recolhi da maresia,
que andou por cima de tudo e mais um pouco, lavrando a terra seca,
desacomodando as pedras da estrada, arrevesando para longe todo o galho que por
ventura resolvesse atravessar por onde não devia.
A maré veio rebolando suas
ondas rindo baixinho. Como eu havia decidido mudar o coreto em que eu tocava há
muito tempo, aproveitei a carona imprevista me deitando em seu leito arrevesado
de água salgada e ardida, marolando por entre a espuma, seguindo em frente.
Deste modo, pensava eu, se por ventura eu me achegasse ao seu destempero
radiante eu poderia acabar com o enredo barulhento que jazia em minhas costas
me agrilhoando.
Eu tinha certeza de que o fim
estava próximo, que ontem mesmo eu havia desfeito o teatro apagando o cenário
com todos os instrumentos aos quais eu trabalhei e de lá fui jogando para o
tempo a presença, o sorriso, o olhar atento, a fala oportuna, a disciplina, a
cooperação pertinente, meus pés, minhas mãos, meu bem querer.
Quando finalmente minha alma
deixou a ocasião percebi que havia por ali, escondidos, pedaços de mim em
alguns recantos da rua em curso. Me apressei e subi ao estrado novamente recolhendo
o que de mim restou e foi despedaçado. Não tive pressa alguma porque o mar
havia terminado ali seu destino e se preparava para voltar. Abracei a mim mesma,
subi na crista da onda retornando nesta onda Divina. Que carona!

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