Tenho a impressão que eu
acordei de um sono tão profundo e silencioso que o despertar me deu a exata
impressão de colocar meus pés, um após outro, a palmilhar um local em que o
chão e paredes soavam falsas, como se por detrás delas houvesse uma multidão de
bocas invertidas em seu sorriso, lábios que se movimentavam sem emitir som
algum me dando a impressão que o conteúdo daquela massa não chegava e nem
chegaria a lugar algum. Vociferavam surdamente no vazio, talvez imaginando
atingir o outro lado daquela parede falsa, ocupada por bocas de bom tom, de
lábios sorridentes, de olhos calmos que miravam o entorno do bem se manifestar
por um motivo, por outro, por todos.
Resolvi refletir sem paixão,
apenas com o olhar da realidade em que todo dia, quer eu queira ou não, coloco
os pés no assoalho. Este chão, que nem sempre me acolhe, vez ou outra crava os
dentes de minhas veias, recusa meu andar no piso gelado desnuda de proteção,
coloca percalços em frente para testar se estou atenta na primeira passada do
dia, afinal, meu olhar se abriu do nada em que me encontrava assim que o fio da
noite se foi.
Com ela se indo por detrás da
serra, surge o desafio da claridade que não pede licença como a noite que se
vai mansa. Ela arromba as janelas, as frestas, as cortinas, os furos da
veneziana, enfim, batem na minha frente
com as mãos na cintura, perguntando se vou abrir a boca como falante ou se vou ficar
ali espreitando quem possui o vazio dentro de si. De pronto resolvi sair do
corredor escuro a que fui submetida em um cochilo da minha atenção que não se
protegeu do vazio de muitas bocas sem rosto.

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