quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

Bocas do Nada

 


Tenho a impressão que eu acordei de um sono tão profundo e silencioso que o despertar me deu a exata impressão de colocar meus pés, um após outro, a palmilhar um local em que o chão e paredes soavam falsas, como se por detrás delas houvesse uma multidão de bocas invertidas em seu sorriso, lábios que se movimentavam sem emitir som algum me dando a impressão que o conteúdo daquela massa não chegava e nem chegaria a lugar algum. Vociferavam surdamente no vazio, talvez imaginando atingir o outro lado daquela parede falsa, ocupada por bocas de bom tom, de lábios sorridentes, de olhos calmos que miravam o entorno do bem se manifestar por um motivo, por outro, por todos.

Resolvi refletir sem paixão, apenas com o olhar da realidade em que todo dia, quer eu queira ou não, coloco os pés no assoalho. Este chão, que nem sempre me acolhe, vez ou outra crava os dentes de minhas veias, recusa meu andar no piso gelado desnuda de proteção, coloca percalços em frente para testar se estou atenta na primeira passada do dia, afinal, meu olhar se abriu do nada em que me encontrava assim que o fio da noite se foi.

Com ela se indo por detrás da serra, surge o desafio da claridade que não pede licença como a noite que se vai mansa. Ela arromba as janelas, as frestas, as cortinas, os furos da veneziana, enfim, batem na minha  frente com as mãos na cintura, perguntando se vou abrir a boca como falante ou se vou ficar ali espreitando quem possui o vazio dentro de si. De pronto resolvi sair do corredor escuro a que fui submetida em um cochilo da minha atenção que não se protegeu do vazio de muitas bocas sem rosto.

 

 

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