quinta-feira, 15 de janeiro de 2026

A Vaga

 


Rumei com muita certeza na rua, neste dia iluminado. Surgiu de repente na minha alma um sentimento de valor intrínseco que volatizava ao meu redor, causando-me certo desconforto. Sempre imagino que meus sentimentos estão acomodados aqui e ali; vez ou outra, parece que se atrapalham, evadem-se de onde devem estar e rumam para algum lugar desconhecido em mim. Criam um desconforto físico que vai se alojar em algum canto das minhas entranhas que, ao reconhecer a quem pertence o assunto, revolta-se.

Fico me movimentando em círculos para entender qual foi o motivo desta Vaga ter sido suprimida do meu dia. Dá-me a impressão que, apesar de me pertencer, não a retive. Não pude imaginar que ela pudesse ser sequestrada por alguém não autorizado, sem que eu me desse conta. Sem prestar muita atenção, em um dia qualquer, abri o cadeado da minha obrigação comigo mesma e, no fluxo e refluxo da vida, escapou da minha guarda uma convicção importante, deixando minha alma em apuros na tratativa do resgate.

Resolvi divagar e percorrer, ponto a ponto do esqueleto em transe, qual o local em que vacilei no cuidado. Dei-me conta de que minha coluna é de cristal: transparente, com sua composição enfileirada destinando a mim — mesmo tão delicada — um espaço de cuidado primordial. Foi ali que entendi: o descuido foi o motivo de deixar em aberto o que precisava ser guardado muito de perto.

Minha Vaga. Preenchida por mim.

 

Nenhum comentário:

Alegoria

  Encontrei aquele rolo no meio dos meus guardados, aqueles que vieram de longe aportar por aqui para todo o sempre exatamente como determin...