Em meio àquele sono tumultuado,
com olhos semicerrados, enxerguei algo que me puxava. Tive a impressão nítida de
que, ao escorregar da minha cama, meu corpo se negava a me acompanhar,
mergulhando então em um buraco escuro como breu e, amortecida pelo choque, fui
sendo levada de arrasto para mais e mais fundo. Paulatinamente, percebi que as
paredes nas quais procurava me apoiar eram esburacadas e recheadas de um sangue
viscoso que sugeria vir de dentro.
Ergui-me à
procura de mim, pois parecia faltar corpo e alma que seguiam no rastro da
névoa, até conseguir me alcançar e retomar o controle. Parecia ir de encontro
ao grupo que me aguardava, já iniciando o revezamento para lidar com a
desconhecida – até então – parte do meu corpo que insistia em fugir das minhas
entranhas. Neste momento, minha percepção do entorno se aguçou e assim fui
levada sobre rodas para um lugar seguro, seguida de olhares atentos ao fio de
vida que se compunha integralmente.
Refeita do
susto, mantive a compostura independente de vagar por aí. Agora, com o jogo do
corpo completo, palmilho pé ante pé as tépidas águas do mar, chutando com
suavidade a branca espuma de ondas pequenas que chegam a mim, alegremente, para
dar boas-vindas à minha presença. Sentei-me na areia úmida, catando as conchas
que se derramavam aos meus pés, ansiosas para que as levasse comigo e figurassem
na galeria especial dos amigos das profundezas. Foi neste contexto leve e
lúdico que fui salva pelo arrimo desconhecido: um par de olhos solidários e um
sorriso de boas-vindas.

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