quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

Anjos Desconhecidos

 


Em meio àquele sono tumultuado, com olhos semicerrados, enxerguei algo que me puxava. Tive a impressão nítida de que, ao escorregar da minha cama, meu corpo se negava a me acompanhar, mergulhando então em um buraco escuro como breu e, amortecida pelo choque, fui sendo levada de arrasto para mais e mais fundo. Paulatinamente, percebi que as paredes nas quais procurava me apoiar eram esburacadas e recheadas de um sangue viscoso que sugeria vir de dentro.

Ergui-me à procura de mim, pois parecia faltar corpo e alma que seguiam no rastro da névoa, até conseguir me alcançar e retomar o controle. Parecia ir de encontro ao grupo que me aguardava, já iniciando o revezamento para lidar com a desconhecida – até então – parte do meu corpo que insistia em fugir das minhas entranhas. Neste momento, minha percepção do entorno se aguçou e assim fui levada sobre rodas para um lugar seguro, seguida de olhares atentos ao fio de vida que se compunha integralmente.

Refeita do susto, mantive a compostura independente de vagar por aí. Agora, com o jogo do corpo completo, palmilho pé ante pé as tépidas águas do mar, chutando com suavidade a branca espuma de ondas pequenas que chegam a mim, alegremente, para dar boas-vindas à minha presença. Sentei-me na areia úmida, catando as conchas que se derramavam aos meus pés, ansiosas para que as levasse comigo e figurassem na galeria especial dos amigos das profundezas. Foi neste contexto leve e lúdico que fui salva pelo arrimo desconhecido: um par de olhos solidários e um sorriso de boas-vindas.

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