sábado, 16 de maio de 2026

A Perspectiva do Cristal

 


Andando por aí me deparei com três lindos potes com transparência de cristal antigo, rebrilhando em miríade de fagulhas luminosas.  As três peças estavam colocadas em uma prateleira, quase escondida, de uma loja de objetos antigos com um acervo fora do comum. Por este motivo eu havia entrado ali, parecendo que a bela trinca empoleirada me chamava. Como se fosse um aviso do tempo, ao me aproximar, senti que havia histórias mal contadas neste cristalino objeto.
Arrebanhei os três, levando-os para casa envoltos em papel de seda e algodão. Desta forma, evitei qualquer incidente que os fizesse se arrepender de ter me chamado a atenção e, consequentemente, fugido do resgate sugerido.
Rumei pelo caminho mais curto porque os meus pensamentos estavam em sequência, só de pensar que a história dentro deles poderia saltar até mim. Ao mesmo tempo, na agitação, meus personagens já estavam a caminho do acervo de uma mente, quiçá caduca, com dedos ágeis que escrevem no ar.
A primeira peça, ao ser colocada em pedestal de madeira rústica, na entrada do espaço, contrastou com a sofisticação da delicada cor rosa. Minha alma se comoveu quando iniciei a separação de assuntos que iriam resplandecer no seu sentido. Por estar posicionada na recepção do lugar em que eu vivo, decidi guardar ali as lembranças da minha vida infantil, da face levemente emburrada, do silêncio respeitoso ao meu redor – além de canetas, lápis e cadernos antigos de criança, em branco.
A segunda jarra foi acomodada no centro da mesa e a preenchi com pequenos bilhetes grafados na pressa da rotina do dia. Ali depositei todas as palavras que me vêm à boca, quase sempre em alta voz, como se estivesse sendo assaltada por algo ou alguém, que ao não conseguir se comunicar comigo, envia a mensagem pela brisa do mar, que entra sempre sem bater.
Levantei o terceiro frasco, que em sua transparência dizia a que propósito havia escolhido a mim como guardiã. Ao fitar demoradamente a peça de cristal compreendi que seria o depositário do meu futuro, transparente, vazio e da cor azul do céu que me resguarda.

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