Depois de um sono mais leve do
que eu gostaria e meus pensamentos voláteis como mariposas ao redor da luz,
empreendi minha jornada do dia que se avistava muito diferente de tantos outros
amanheceres. Meu corpo levitava entre a maresia que enfunava as cortinas com o
sol sombreando aqui e ali sua luz tênue. Resolvi aproveitar a misteriosa luminosidade
e conferir alguns guardados. Pressenti que algo havia acontecido com o meu espírito
e que a resposta estaria escamoteada naquele canto soturno do sótão, esquecido
por mim.
Escolhi um lindo e vaporoso
vestido branco não me importando com o pó que eu iria encontrar. Estava tão
curiosa e aflita para descobrir o que a noite havia preparado para mim, que
resolvi honrá-la. Encontrei embaixo da escada, perto de uma pequena janela, uma
pilha de cadernos grandes com capa muito caprichada parecendo que cada um deles
possuía um tema, uma fase, uma idade, um lugar.
Retirei o primeiro da pilha,
pequena é verdade, que possuía um matiz cor de rosa bem esmaecido que me deu a
impressão de um cansaço de existir, revelando-me ao pé do ouvido que seu
conteúdo era tão antigo que ali restava apenas uma escrita descontinuada, como
se fosse apenas um sopro.
Passei para o segundo
alfarrábio, cujo revestimento era sombrio e pesado demais para um simples
caderno. Suas páginas emboloradas, embebidas pela suave maresia do úmido sótão,
sucumbiram ao toque da primeira réstea de luz, desfazendo-se em mil pedaços que
se aninharam nas frestas do assoalho antigo.
No sopé da pilha retirei a
peça mais nova deste acervo e que possuía um revestimento tão delicado que me
enchi de cuidados ao trazê-lo até mim com certa ansiedade e medo do que eu ali
iria encontrar, uma vez que estava em tão bonito estado de conservação. A
composição de caprichadas páginas em branco simbolizava a bússola do meu
coração.
